‘Não acreditava no coronavírus’, diz irmão de vítima da Covid-19

Wagner Ferreira Carvalho, 35 anos, técnico de telecomunicações de São José dos Campos, admite que chegou a “não acreditar no coronavírus”.

“Eu cheguei a não acreditar no isolamento, na epidemia, no coronavírus. Parei de ver notícias, muita informação pesada”, diz ele.

Mas a opinião mudou após a morte do irmão, o gerente de Tecnologia da Informação William Ferreira Carvalho, 39 anos.

Ele faleceu no último domingo (12) após 15 dias internado no hospital, vítima da Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus.

William foi o terceiro e mais jovem paciente a morrer pela doença em São José. Na cidade, a Covid-19 já causou a morte de uma mulher de 82 anos e um homem de 64 anos.

“As pessoas têm que acreditar que é uma doença muito séria, muito grave e que pode matar quem amamos. Todos têm que ficar em casa”, diz Wagner, que passou a falar com a filha por videoconferência –ele está em processo de separação da mulher.

SONHOS.

William queria ser pai. Estava no segundo casamento, há menos de dois anos, e já fazia planos para aumentar a família. Fazia juras de amor à mulher e vivia uma boa vida em São José dos Campos.

Segundo familiares, William era brincalhão, alegre e gostava de dançar e cozinhar. Era uma pessoa caseira, curtia música sertaneja e torcia pelo Corinthians. “Estava muito feliz”, conta Wagner.

Tudo isso foi soterrado por um vírus. Tão letal quanto desconhecido: o coronavírus.

Sem ter feito qualquer viagem ao exterior, segundo a família, William seguia sua vida normalmente quando foi decretada a quarentena, em 23 de março. Passou a trabalhar de casa.

“Ele não viajou à China como espalharam pela internet. Nem saiu de São José. Disseram até que ele tinha trazido o vírus para a cidade. As fake news revoltam”, diz o irmão.

Em casa, William e a esposa começaram a passar mal em 23 de março. Eles foram atendidos em um hospital particular, que recomendou o isolamento. Ambos atenderam à orientação, mas o quadro de saúde de William começou a piorar. Ele tinha pressão alta.

A partir daí, o gerente de Tecnologia da Informação viveu a sua própria via-crúcis de entrada e saída do hospital e internação na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo).

“Estou bem cansado”, escreveu William para uma tia, por um aplicativo de troca de mensagens, enquanto lutava pela vida na cama do hospital.

Os familiares viviam a expectativa de que ele melhorasse, mas Wagner admite: “Não tínhamos ideia da gravidade da doença”.

No dia 29, a reação de William ao tratamento encorajava a família. Mas a saúde piorou no dia seguinte. A família vivia em uma montanha-russa emocional.

“William não conseguia nem falar e a situação era preocupante. Os rins pararam de funcionar e ele iria começar a diálise. Foi confirmada a Covid-19 [doença causada pelo novo coronavírus]”, diz Wagner.

Segundo o irmão, William teve uma pneumonia viral e chegou a ser tratado com cloroquina, mas não adiantou.

O quadro dele foi piorando até que, na manhã de domingo, 12 de abril, William morreu às 10h30. O corpo foi enterrado na última segunda-feira (13), em Eugênio de Melo.

Ele foi confirmado como o terceiro óbito para o novo coronavírus em São José.

“Ficamos muito preocupados quando disseram que ele estava com a Covid-19. Não tínhamos ideia do que era a doença. A cloroquina estava sendo bem falada e esperávamos que o medicamento reagisse nele, e ficamos com um pouco de esperança. Mas o quadro só piorou”, conta Wagner. “O quadro dele passou a ser irreversível. Infelizmente, o coração parou”.

A tristeza tomou conta dos pais de William, que vivem separados, e dos quatro irmãos, além da mulher, de parentes e amigos. “Minha mãe está destroçada por dentro”.

Wagner conta que passou a se cuidar mais depois da morte do irmão, e pede que ninguém menospreze a gravidade da doença. “É muito grave e todos têm que respeitar a quarentena”.

Sobre a cloroquina, Wagner opina que o medicamento ainda não tem comprovação científica, o que não garante a cura para o coronavírus. “Muitas vezes as pessoas acreditam nisso, e não dá certo”.

Os amigos e familiares não poderão mais degustar os pratos que William preparava na cozinha. Fica a lembrança de alguém cheio de vida, realizações e de sonhos.

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Redação NES
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