Pesquisadora baiana estuda impactos da Covid-19 na população negra

Foto: Divulgação

“Para a população negra, a pandemia da Covid-19 atualiza os problemas do passado, cujo centro é o racismo em suas diferentes dimensões”. É desta forma que a pesquisadora baiana da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Edna Araújo, junto ao seu grupo de pesquisa, alerta a população para os impactos relacionados ao coronavírus enfrentados pelas pessoas negras. O estudo se tornou um artigo a ser publicado no Brasil e também nos Estados Unidos, em parceria com a professora Kia Lilly Caldwell, da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, para descrever a experiência de ambos os países em relação aos dados de mortalidade de acordo com a raça, cor e etnia.


Além de atualizar as feridas do racismo enfrentadas ao longo da história, Edna chama atenção para o fato da precariedade do registro da raça, cor, etnia nos sistemas e relatórios de informação em saúde. “Esta falta de dados representa não só um grande problema à implementação de políticas públicas de saúde, como também caracteriza a baixa adesão à Política Nacional de Saúde Integral da População Negra no território brasileiro. Queremos, através destes artigos, dar visibilidade ao fato de que os dados da Covid-19 referentes às populações negras e indígenas estão sendo divulgados pelas autoridades de saúde brasileira e estadunidense de forma incompleta e subnotificada e, mesmo assim, estas populações aparecem como as mais afetadas por esta pandemia”, explicou.


“O tratamento que negros recebem nos dois países revela o racismo antinegro como um sistema excludente. Muito mais que a negação do registro dos dados sob perspectiva étnico-racial, nega-se o reconhecimento dos sujeitos, sua identidade, direitos e necessidades. A baixa qualidade dos dados em saúde referentes a pessoas negras infectadas ou mortas por Covid-19 reafirma o racismo e potencializa a vulnerabilidade deste grupo populacional”, completou Edna, ao ressaltar que sob preenchimento adequado, e a divulgação desses dados, será possível implementar políticas e ações de saúde efetivas, inclusivas, bem direcionadas, com o objetivo de diminuir a desigualdade. “A não divulgação dessas informações representa o descaso com a equidade e ressalta a prática de racismo institucional”, disse.


A inspiração para criar este estudo surgiu do estímulo pelos editores da Revista Saúde em Debate ao formular um convite para a publicação de um artigo sobre os impactos da doença na população negra. “Já publicamos o primeiro artigo nos Estados Unidos, e temos o outro que está prestes a ser publicado pela Revista Saúde em Debate. Além disso, outra parte do material já foi publicada pela Revista Estudos Avançados da USP, o que facilita a disseminação deste assunto que é tão importante para o combate à prática de racismo institucional”, disse. Segundo a pesquisadora, o artigo foi realizado a partir de dados secundários, ou seja, a principal fonte de dados foram os Boletins Epidemiológicos referentes à pandemia publicados pelo Ministério da Saúde de final de janeiro a final de junho de 2020 e também dados parciais da pesquisa do IBGE, PNAD-Covid-19.


Dar visibilidade à prática deste racismo institucional por ambos os países, quando se trata de combater à pandemia, é um dos principais benefícios que estudos como este podem oferecer, de acordo com Edna. “Quando os dados não são divulgados de forma efetiva, fica impossível mensurar os impactos da Covid-19 nos diferentes segmentos populacionais, o que dificulta o monitoramento de desigualdades raciais nas políticas públicas de enfrentamento à doença”, completou ao ressaltar que faz parte do Grupo de Trabalho da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e conta com apoio não só desta Associação, mas também do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). 

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Redação NES
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