Moradora da Chapada, curada do coronavírus, relata sua experiência: “Tive medo de morrer e deixar meus filhos”

A história da dona de casa Ana Paula Ribeiro Nascimento, 32 anos, moradora da Chapada do Rio Vermelho e mão de dois filhos poderia ter sido igual à dos cerca de 30 mil brasileiros que já perderam a vida por conta do novo coronavírus. Felizmente, quis o destino que ela tivesse uma nova chance. A sorte de Ana Paula começou ser lançada no domingo, dia 10 de maio, quando ela começou a apresentar os primeiros sintomas do covid-19.

“Sentia muita dor de cabeça e no fundo dos olhos. Pensei que fosse outra coisa menos covid-19. No dia seguinte, segunda-feira (11), apresentei febre de 38/7, dor no corpo e tosse seca. Na quarta começaram as dores no peito, dor nas costas , falta de ar leve e vômitos. Decidi então ir até à UPA de Brotas. Chegando lá fui atendida e lá eles falaram que eu estava com sitomas de dengue, mas não fiz exame nenhum. Falaram que não estavam fazendo teste para covid. Como eu estava com muita dor e desconforto a médica me colocou no soro, aplicou dipirona e me mandou para casa”, conta a Ana Paula.

O calvário da dona-de-casa esta apenas no começo. Dá em diante só fez piorar. Aos sintomas já apresentados se somaram: à perda do olfato e paladar, além de uma grande dificuldade para respirar. O agravamento fez com que a vítima decidisse tirar o filhos de casa: “A falta de ar era terrível, parecia que eu ia morrer afogada. Não conseguia respirar fundo que dóia. Muita dor nas costas. Como eu moro de aluguel com meus dois filhos, resolvi tirá-los de casa. O de 2 anos foi o cada do pai e o de 15 para casa da avó”.

Desempregada há um ano e quatro meses e sem dinheiro para pagar o exame, Ana Paulo decidiu pedir ajuda a mãe: “Eu fui piorando e já não sabia mais o que fazer. Pedi a minha mãe pelo amor de Deus que pagasse o exame. Paguei exatamente 300 reais”.

Três dias depois o veredicto: Ana Paula havia testado positivo para o novo coronavírus. “No dia que peguei o resultado piorei durante a noite e não tinha ninguém pra dar um socorro todo mundo tinha medo. Infelizmente, o preconceito existe. Uma vizinha ligou para SAMU e eles alegaram que a demanda estava muito grande que não ia conseguir me atender que era para eu procurar um posto de saúde mais próximo. Tive medo a todo instante… Medo de passar muito mal na madrugada e estar sozinha, de morrer e deixar meus filhos… Tive sorte por não ter nenhuma doença crônica porque poderia ter sido pior”, lembra.

Já com resultado do exame em mãos, a jovem precisou ir novamente à emergência. De acordo com ela, diferente da primeira vez, o tratamento foi outro: “Quando cheguei lá com meu laudo de positivo tudo mudou. O atendimento foi outro acredite.Fiz raio-x e detectaram que meu pulmão estava inflamado. Tomei medicamento,fiquei lá em observação. Depois voltei pra casa com os medicamentos corretos e comecei o tratamento nos pulmões. A recuperação foi bastante lenta”.

Vinte e dois dias depois, Ana Paula recebeu alta e já está em casa com os dois filhos. Entretanto a luta ainda não acabou. Sua mãe que veio de Simões Filho para socorrê-la acabou pegando a doença: “Ela foi contaminada por mim. Mas graças a Deus ela está bem cumprindo isolamento”

“Foi uma luta, um momento de reflexão… Eu, de verdade, acho que as pessoas deveriam levar mais a serio. Acredito que eu, inclusive, falhei com os cuidados e por isso me contaminei. Vivi a pior sensação do mundo. Uma doença vazia, dolorosa…Ficar longe de quem amamos… Então, a digo a todo fique em casa de verdade porque esse vírus realmente existe. Não são números, são pessoas que estão morrendo e sendo contaminadas todos os dias”, lembra emocionada a dona de casa, que tira o sustento vendendo geladinhos gourmet.

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU