Com um mês de medidas restritivas, comerciantes do Nordeste de Amaralina reclamam de prejuízos: “Já extrapolou todos os limites”

Os efeitos da pandemia do coronavírus são sentidos de forma latente nos mais diversos aspectos da vida dos moradores do Complexo Nordeste de Amaralina. Como se já não bastassem os efeitos físicos da doença, que já tirou a vida de dezenas de pessoas da comunidade e de mais de cem mil brasileiros, as consequências econômicas da crise sanitária têm atingido em cheio o bolso da população, em particular, dos comerciantes do bairro. Com cinco meses de pandemia e mais de um mês de medidas restritivas no Nordeste e na Santa Cruz, o microempresários do Complexo tem amargado duros prejuízos. Enquanto que o Nordeste é alvo das ações desde o dia 8 de julho, a Santa Cruz, após ter sido objeto das atividades durante mais de 20 dias, entre os meses de junho e julho, voltou a ser palco das medidas na última sexta-feira (7).

Lembrando que com as medidas restritivas regionalizadas, aplicadsa pela Prefeitura, os comércios formal e informal do bairro devem permanecer fechados, independentemente do tamanho da área. A exceção acontece apenas com as atividades essenciais, a exemplos de supermercados, padarias, delicatessens, farmácias, açougues, estabelecimentos que utilizam o sistema de delivery (sem retirada no local) e serviços de saúde. Para se ter uma ideia, a tradicional feira realizada há mais de 30 anos no final de linha do Nordeste, já não acontece há mais de um mês.

Comerciantes – Valteres Amâncio de Souza, mais conhecido como Terinho, é proprietário de um bar e um depósito de bebidas, ambos situados no final de linha do Nordeste. Enquanto que o primeiro encontra-se fechado desde o inicio da pandemia, o segundo vem funcionando no sistema de drive-thru. Para Terinho a situação “já extrapolou todos os limites”.

“É complicado. O nosso bairro a pouco tempo não tinha caso nenhum. Como todo mundo sabe isso aqui é um complexo, composto por Nordeste, Vale, Santa Cruz e Chapada, então como pode o Nordeste ter seiscentos casos e o vale das Pedrinhas ter sessenta e quatro? Ou a Santa Cruz ter mil e alguma coisa e a Chapada ter vinte casos? Isso não existe. Queria que o prefeito me respondesse isso…”, questiona o empresário.

“Acho também que no Nordeste não tem esses casos todos… Eles fazem o teste de Covid aqui no bairro e vem gente da Pituba, do Rio Vermelho, do Vale, da Santa Cruz para fazer esse teste. Depois, o teste é computado como se fosse gente somente do Nordeste. Isso já perseguição por parte desse prefeito… Em outros bairros foram no máximo 21 dias e no Nordeste já tem mais um de mês… “, completa Terinho.

Segundo Terinho,  a vendagem caiu de forma drástica, pois “quando se fala que a localidade está em restrição muita gente deixa de vir ao bairro porque sabe que o comércio está fechado”.

“A clientela que era de cem desce para trina. O pessoal corre para o Vale ou Santa Cruz. Estamos fazendo das tripas coração para poder trabalhar e suprir as nossas necessidades. Tenho funcionários e aluguel para pagar. São cinco funcionários trabalhando comigo e não demiti ninguém. Se eu ficar de portas fechadas terei que pagar do mesmo jeito. Estamos nos virando… Atendendo via drive thru e delivery para puder pagar as contas”, finaliza.  

Opinião parecida tem Milton Gonçalves, proprietário do restaurante Mocotó da Amélia, e administrado por ele e a esposa. Atendendo via drive-thru desde o início da crise sanitária, o comerciante viu despencar drasticamente suas vendas, sobretudo nos dias de quinta e sábado, dias em que são servidos os concorridos cozido e mocotó, respectivamente.

“Se antes chegava a vender entre 90 e 110 pratos, atualmente comercializa no máximo 40 quentinhas. Sofremos um prejuízo incalculável, não somente eu como todos comerciantes do bairro. Talvez, alguns ou muitos não consigam mais reabrir o seu comércio por conta da decisão do senhor prefeito ACM Neto. Não temos culpa dos paredões que acontecem no dia a dia. Não temos culpa da pandemia. A única coisa que sabemos é que estamos com um prejuízo muito grande. Muitos já estão passando fome e entregando as propriedades para os seus donos, pois não têm condições de pagar aluguel”, explana Milton.

Gonçalves aproveita ainda para denunciar supostos excessos cometidos por fiscais da Prefeitura e faz um apêlo à gestão municipal: “Os ficais, totalmente despreparados, chegam em nosso comércio abordando com agressividade, com homens armados, constrangendo a todos nós. Prefeito, tome a atitude correta e não puna o comerciante. Puna aqueles que devem ser punidos. Não temos culpa de absolutamente anda. Somos eleitores e acredito que o senhor tenha que tomar a decisão correta. Não aguentamos mais os prejuízos causados pela Prefeitura a nosso comércio.

Para Crisvandilson Nascimento, proprietário do Botequim da Vela, situado na Rua do Norte, também no Nordeste,  as medidas de restrição acentuaram ainda mais os prejuízos. De acordo com Nascimento, o estabelecimento havia suspendido as atividades um pouco antes do carnaval para reformas e quando ficou pronto já não pôde mais abrir. Ainda em setembro, o empresário pretende retomar os atendimentos via delivery.

“Como a maioria dos comerciantes a gente vem sofrendo com as consequências da pandemia do Covid-19. Sabemos das necessidades dos cuidados preventivos, porém, falando como comerciante, amargamos um prejuízo absurdo durante esse período. Gostaríamos de sentar com os órgãos competentes e alinhar da melhor forma possível a reabertura do nosso comércio, sem gerar transtorno e nem prejuízo a nenhuma das partes. Sabemos que é bastante complicado para o ramo de bares e restaurantes, cujo contato proximal  entre as pessoas é bastante comum. Mas também não pode esquecer que esses mesmos locais beneficiavam também artistas locais que aqui se apresentavam”, ressalta.

“O momento é difícil, mas como fé em deus vai passar. Queremos seguir todas as normas e protocolos que foram determinados pela Prefeitura, mas precisamos que sejam revistas essas medidas restritivas dentro do nosso bairro”, completa Crisvandilson.

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU