Bel Borba esclarece polêmica sobre ‘Baiana Azul de Amaralina’

Foto: Hernani Castro Junior

Admirada por toda a população, a beleza da escultura em homenagem às baianas chama à atenção. Com 4 metros de altura e pesando 16 toneladas, a “baiana azul de Amaralina” se impõe perante a paisagem do novo Largo de Amaralina. Entretanto, a fonte de inspiração que deu vida à escultura se tornou alvo de polêmica na comunidade.

Em entrevista ao jornal Correio, o pai da obra, o artista plástico Bel Borba, afirmou que escultura, que pode ser vista preparando a massa de algum quitute, teve como modelo, para concepção das sua anatomia, a moradora de Pernambués Cida de Nanã, que é bisneta de Mãe Senhora (1890-1967), terceira ialorixá da história do Ilê Axé Opô Afonjá, e pentaneta de Marcelina da Silva, a Oba Tossi, uma das fundadoras da primeira casa de candomblé do Brasil, o Ilê Axé Airá Intilè (Candomblé da Barroquinha), origem da Casa Branca. A revelação causou um mal entendido entre a comunidade do Nordeste de Amaralina, que viram no fato um suposto desrespeito à antigas quituteiras que por décadas ajudaram a criar a fama do famoso largo.

“Algumas baianas questionaram: quem é essa tal de Cida que ninguém conhece? Essa baiana de Pernambués não significa nada para nós de Amaralina. Aquela imagem representa as baianas que já passaram por ali. Ficamos felizes em saber que tem filhas e netas de baianas que já morreram e estão vendo aquela escultura em memória das que já se foram. Não é nenhuma Cida de Pernambués”, relatou Sueli Bastos, 43 anos, moradora do Areal, no Nordeste de Amaralina e que trabalha no Largo de Amaralina há 32 anos. 

“Engraçado que aquela imagem tem a mesma posição do pescoço e da colher de pau de Emília, uma antiga baiana que trabalhou ali. É o mesmo jeito do pescoço e da colher de pau”, completou Sueli.

Uma outra “quituteira” da região também questionou a fonte de inspiração: “Papagaio come o milho e periquito leva a fama… Com tanta baiana em Amaralina, um lugar com tantos anos de existência.. Quando querem a foto de uma baiana caracterizada sem eles vem em Amaralina. Aqui trabalhamos caracterizadas todos os dias. E ele vai procurar inspiração de uma baiana de outro lugar? Isso é para sacanear com a gente…”, diz Jaciara Sacramento Souza, 66 anos, que começou a vender acarajé no local ainda adolescente.

Presente em todas as reuniões que definiram as diretrizes do projeto de requalificação da orla de Amaralina, o vereador Claudio Tinoco defendeu a a liberdade do artista na criação da peça e ressaltou que as baianas de Amaralina serão protagonistas no novo Largo: tiveram voz e terão vez no novo espaço: “Quem conhece a história do Largo das Baianas, como já foi dito aqui mais acima, sabe de tantos nomes que fizeram e fazem a sua história. Eu acompanhei de perto todas as audiências públicas e posso afirmar que as Baianas tiveram voz e terão vez no novo, mas tradicional, espaço. No que diz respeito à escultura, só Bel Borba pode falar sobre a sua inspiração. Trata-se de uma obra de arte, que segundo o próprio diz na placa que é inspirado no azul do céu de Amaralina e na Paz”.

O Autor – O artista plástico e autor da escultura da baiana azul de Amaralina, Bel Borba, disse ter recebido com surpresa a polêmica em torno da sua obra. Borba esclareceu que ali está representada a perspectiva do seu imaginário enquanto artista. “Sem identidade e sem bairro. Olhando para minha escultura você não vai conseguir dizer de que bairro ela é. Não sabia que tinha fazer uma baiana com nome e endereço. Além disso, é uma prerrogativa do artista escolher a modelo que ele deseja para a realização do seu estudo”, explicou.

Bel Borba fotografando Cida

“Ela é um resumo do meu imaginário. Ali não tem a identidade especifica de nenhuma baiana. É uma baiana de acarajé criada por Bel Borba. Cida pousou para as fotos apenas para que eu fizesse um estudo anatômico , mas não dei à escultura o seu rosto, as suas medidas e nem suas roupas. Se a pessoa olha para a escultura e olha para as fotos que usei como estudo nem parece que é a mesma pessoa. A Cida não está representada no meu trabalho”, completou Bel Borba.

COMPARTILHAR
Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU