Baianas de Amaralina lamentam desamparo da Prefeitura durante obra; pandemia agravou situação

Suntuosidade do projeto e politicagem em torno da obra contrastam com difícil situação das famosas quituteiras

A situação das baianas do Largo de Amaralina em nada se assemelha com a linda publicidade em torno da requalificação do tradicional espaço de comercialização das tradicionais iguarias da culinária baiana. Alvo de exploração política, o projeto da nova orla de Amaralina relegou ao segundo plano aquelas que de fato deveriam ser as grandes protagonistas. Por conta das intervenções iniciadas em dezembro do ano passado, essas trabalhadoras, algumas com mais de 40 anos “de tabuleiro”, foram obrigadas a abandonar o local sem qualquer tipo de contrapartida.

Em entrevista ao Nordesteusou, a presidente da Associação Nacional das Baianas de Acarajé (Aban), Rita Santos, salientou que antes mesmo do início das obras de requalificação da orla de Amaralina a situação das trabalhadoras que ali colocavam os seus tabuleiros já estava difícil em virtude das “péssimas condições do local”.  “Veio o carnaval foi uma decepção.  Veio a pandemia piorou ainda mais. Não houve contrapartida por parte da Prefeitura, pois no decreto Municipal tem um dos parágrafos que diz se for do interesse público a PMS pode retirar a baiana a qualquer momento e a baiana pode procurar outro local próximo. As baianas de Amaralina que têm licença ou protocolo receberam o auxílio de R$270.”, ressalta.

Projeto da nova estrutura que abrigará as baianas de Amaralina

Rita esclarece que algumas reuniões foram realizadas pela gestão municipal para que as baianas pudessem dar sugestões sobre o projeto do novo espaço de trabalho, mas de acordo com ela, não houve grande adesão das quituteiras. “Participamos das 4 reuniões, mas poucas baianas de Amaralina vieram… Pedi 10 quiosques e só vão ter 8 porque a prefeitura passou pelo local por vários dias e só tinham 4 baianas.  Como nem todas são associadas fica difícil você fazer alguma coisa. Elas não entendem que juntas somos mais fortes.”.

“Nós somos uma associação sem fins lucrativos. A baiana paga uma mensalidade de R$12 por mês.  A licença na Semop (Secretaria Municipal de Ordem Pública) somos nós que vamos até lá para dar entrada. Realizamos também cursos de qualificação. No ano passado colocamos 100 baianas no programa do Governo do Estado que iria disponibilizar tabuleiros novos. Nesse momento já distribuímos 980 cestas básicas. Não recebemos nada do município ou estado”, acrescenta.

Largo – Sueli Bastos, 43 anos, moradora do Areal, no Nordeste de Amaralina, trabalha no Largo de Amaralina há 32 anos. O ofício aprendeu através de sua mãe, dona Rosália Bispo, 67 anos, que por sua vez, também herdou a profissão da sua genitora.

“Foi passando de geração em geração…Minha mãe vendeu ali por quase cinquenta anos. Eu comecei a trabalhar ali novinha com minha mãe. Oferecia acarajé aos clientes nas mesas. Foi aí que vim a aprender a fazer o acarajé. Antigamente, em Amaralina, as baianas podiam amanhecer vendendo acarajé. Eu ficava com minha mãe até de manhã. Minha mãe cochilava e me deixava sentada para vender. Quando amanhecia a gente arrumava tudo e volta para casa. Minha mãe então engravidou e aí eu tive que ficar no lugar dela para sustentar meus outros irmãos. Antigamente, de menor não pode ficar no tabuleiro. Eu fui trabalhar no tabuleiro de minha mãe com doze anos. Fui uma das mais novas da minha geração”, conta a quituteira.

Sueli no antigo quiosque de palha – anos 90

Os 32 anos atrás do tabuleiro, fizeram de Sueli uma testemunha viva das diversas transformações a que foram submetidas o Largo de Amaralina, nos mais diferentes aspectos. Seja do ponto de vista físico, da sua paisagem e estrutura, ou da queda de frequentadores e de prestígio, sendo os dois últimos frutos do abandono por parte do poder público.

“Mudou bastante o local. Cheguei a encontrar a época de quando o quiosque ainda era de tijolo, bem pequena. Depois passou a ser de palhoça, depois passou ser de telha e depois de lona. Acompanhei várias reformas ali no local. É muito diferente de antigamente para agora. Antes não tinha tanta violência, tanto ódio, tanta maldade no ser humano. Antigamente, eu chegava quatro horas da tarde e voltava para casa no outro dia. Dava até tempo de tomar banho de mar antes de ir embora. Era muito gostoso. A gente recebia muito turista, muita gente famosa. Geralmente, os artistas faziam show e saiam para comer acarajé quando voltavam. O único lugar que tinha para comprar acarajé de madrugada era no Largo de Amaralina. Roberto Carlos, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan, Alcione, Martinho da Vila, dentre outros artistas. Isso marcou a minha infância e juventude”, recorda.

Largo de Amaralina – década de 70

Acostumada a despertar diariamente ainda nas primeiras horas do dia para “adiantar as coisas” e dar início a labuta, Sueli sente saudades da antiga rotina e do ponto, que se confunde com a própria história da sua vida. É ali que ela ganha o pão e se sente feliz. 

“Eu acordava 4h manha e botava o feijão de molho, catava o camarão para tirar o sal e fermentar. Quando chegava no ponto, lá no Largo, arrumava tudo direitinho, botava o sal a cebola e batia a massa. Dia de domingo e feriado, dez da manhã eu fazia de tudo para já estar lá. Sentindo falta também das meninas, lá das colegas. De dar risada, me divertir com elas, dos clientes… Espero que deus me dê saúde para continuar a minha jornada. Estou ansiosa esperando.

De acordo com Sueli, as baianas, grandes protagonistas e principais interessadas na construção dos quiosques, sequer foram ouvidas. “Eu fui para algumas reuniões que teve e em todas eles já estavam com o projeto já em mãos. Montaram o projeto e só fizeram nos mostrar, independente se a gente queria ou não, o projeto já estava pronto. Ali no local onde a gente trabalha só ia ter espaço para três baianas aí depois resolveram aumentar um pouco. Isso por que teve uma época, devido ao abandono, todas as vezes que eles iam lá só encontravam no máximo quatro baianas. Graças a Deus eu sempre estava presente e nunca desisti. Sempre tinha pessoas boas que passavam lá e me dava uma força. Comprava um acarajé para me ajudar”.

A escultura de autoria do artista plástico Bel Borba é ressaltada por ela como talvez o grande ponto forte da obra: “Achei legal a escultura. Homenageia também outras baianas que passaram por ali. Vai atrair muito turista. Por incrível que pareça fui eu quem dei opinião ao artista que estava lá fazendo sobre botar na estátua um colar, um brinco, essas coisas que as baianas usam. Fui lá umas cinco vezes até encontrar ele. Ele aí resolveu ouvir meu pedido”.

Sueli

Ainda segundo Sueli, nenhum tipo de amparo ou contrapartida foi dado pela Prefeitura às trabalhadoras durante o período das obras. No entanto, sempre com os pés no chão, como ela mesmo frisa, a quituteira tem passado o período de inatividade sem maiores sobressaltos. “A prefeitura não falou nada. Como de outras vezes, em outras obras, nunca recebemos ajuda nenhuma. Eu economizei…Só tenho uma filha, que arrumou marido e foi embora. Eu moro só… Economizei bastante. Sempre tive os pés no chão. Me preveni, me guardei. Ainda consigo ajudar a quem precisa. Não tenho do que reclamar. Deus não tem deixado faltar. Ganho R$270 da prefeitura como vendedora ambulante por conta da pandemia, além do o Bolsa Família, que passo para minha filha”.

A expectativa é ter saúde, principalmente. E muita gente, muitos clientes para recompensar o tempo em que a gente só ia ali para perder tempo. Rever nossas clientes, amigos. A gente que tinha que se virar, economizar e guardar nossas economias.

Com quase sessenta anos dedicados à venda de iguarias da culinária afro-brasileira, Jaciara Sacramento Souza, 66 anos, tem sua história de vida confundida com o Largo de Amaralina e a profissão que herdou da mãe e da avó. Filha de Antonieta Marques Santana, Sissi, como é conhecida, é neta da lendária baiana e mãe de santo da região do Nordeste de Amaralina, dona Maria de Catende. E foi também pela via espiritual, que Jaciara iniciou sua jornada nos tabuleiros da vida. “Eu a partir dos 4 a 5 anos de idade fiquei muito doente e fui desenganada pelos médicos. Minha mãe muito desesperada sem saber o que fazer, pois eu era filha única, me mandou fazer o santo e pagar obrigação. Naquela época depois da tirada do quelé a iaô tinha que fazer algum trabalho prá ganhar algum dinheiro, o mínimo que fosse. Então como minha mãe já vendi acarajé”, ela explica.

Casada, mãe de duas filhas, Sissi vive atualmente com o esposo, que é pintor aposentado e com a sogra, na Rua Três Irmãos, no Nordeste de Amaralina. Há mais de seis meses impedida de fazer o que gosta e o que sabe fazer para ganhar o pão, a velha quituteira tem se virado com os R$270 dados pela prefeitura por conta da pandemia. Sissi lamenta que a gestão municipal não tenha amparado as baianas em razão da obra: “Não achei justo, mas o que é que posso fazer? Estou do jeito que Deus quer. Me inscrevi no auxílio e recebi as parcelas de 270. Já a outra (a do Governo Federal) ainda estou em análise”.

Jaciara Sacramento, mais conhecida como Sissi

Sissi lembra os tempos de outrora, quando o Largo chegou a abrigar 38 baianas. “Era muitas baianas cadastradas ali. Você nunca encontrava menos de vinte. Tinha vezes de ter até dois turnos: a baiana que chegava às sete saia e às três e botava outra. Ali era o point e quase não tinha baiana em outros lugares, não era que nem hoje que tem uma em cada esquina”, recorda.

Saudosa, longe do seu habitat, Jaciara diz estar ansiosa para voltar ao ponto de trabalho e também de lazer:  Minha expectativa é a melhor possível. Espero que apareçam clientes, muita gente nem que seja prá passear e valorizar a praça. Sinto saudade de tudo. Do contato com os clientes a convivência com as colegas. Não vou mentir que o “dindim” era pouco e quando dava (risos). Mas sinto falta mesmo dos papos com os clientes. Porque não sei você sabe, mas ali no tabuleiro eu sou tudo: conselheira, psicóloga, mãe, irmã, tia, várias coisas…”.

Poder público – A reportagem do Nordesteusou (NES) entrou em contato com o vereador Claudio Tinoco (DEM), integrante da bancada do prefeito ACM Neto na Câmara Municipal de Vereadores (CMS) e edil mais votado na região. Tinoco destacou o auxílio de R$270 prestado pelo programa Salvador Por Todos, que beneficia os trabalhadores informais da cidade e que contempla também as baianas de acarajé, desde que as mesmas estejam cadastradas na Prefeitura. Entretanto, o Salvador Por Todos tem por objetivo atenuar os prejuízos causados pela pandemia não tendo haver com as obras no Largo de Amaralina. As baianas foram retiradas do ponto em meados de janeiro e o benefício somente foi lançado no final de abril.

Assinatura da ordem de serviço para execução das obras de requalificação do trecho da orla entre Amaralina e Pituba. Evento ocorreu em outubro de 2019

“Lembro que o Salvador Por Todos instituiu o auxílio de R$ 270,00 para as Baianas de Acarajé licenciadas. Porém, não existe essa “indenização” em virtude das obras. O que pode acontecer é a autorização para a instalação em outro ponto provisoriamente. Mas precisaria ser checado na SEMOP se houve essa demanda por parte delas e se isso ocorreu. O que acompanhei nas negociações, inclusive em audiências públicas, foi a garantia do retorno daquelas que exerciam tradicionalmente suas atividades no Largo, com o aval da ABAM”, disse o vereador.

Líder do PT na Casa, a vereadora Marta Rodrigues (PT) criticou a suposta omissão da Prefeitura em relação à essas trabalhadoras. Para Marta, “as baianas de acarajé são patrimônio e não podem ficar à mercê da boa ação da prefeitura”.

“Elas precisam estar com seu ofício garantido, e acima de tudo, respeitado. É absurdo que as baianas do Largo de Amaralina fiquem, até então, desamparadas, sem saber para onde vão, sem poder voltar para o local onde sempre estiveram, fomentando nossa cultura e nossa tradição. Elas não podem ser retiradas de seus locais dessa forma. A prefeitura precisa respeitar isto. Elas foram reconhecidas pelo governador Jaques Wagner como Patrimônio Imaterial da Bahia, e o ofício está no livro de Registro Especial dos Saberes e Modos de Fazer. São um dos maiores símbolos culturais da Bahia e não merecem este tipo de tratamento”, justificou a petista.

O descaso não para por aí: Em maio desse  ano a Prefeitura Municipal de Salvador vetou o Projeto de Lei nº 534/2017, de autoria do vereador Sílvio Humberto, que visava declarar o ofício das Baianas de Acarajé como Patrimônio Imaterial, Cultural e Histórico da Cidade de Salvador.

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU