[CRÔNICA] O Mágico Andarilho ou o Andarilho Mágico

“Amaralina não amanhece, ela amaralinece. Amaralina não anoitece, ela amaranoitece”.

Era comum ouvirmos em bate-papos familiares, hoje cada vez menos frequentes pela presença diária dos celulares e afins na nossa vida cotidiana, a frase “diziam os mais velhos, os mais antigos”, quando desejávamos evocar o passado tentando restabelecer através a memória costumes, personagens, acontecimentos históricos, ou seja, vidas e cenários que deram cor, forma e, sobretudo, vivacidade aos tempos anteriores, dos quais as nossas primeiras informações chegavam dos nossos antepassados. 

Revolver baús, caixas de sapatos já usados, repositórios improvisados ou especial e artesanalmente criados para estes fins em busca de velhas fotos, imagens muitas vezes amarelecidas pelo polimento do tempo, carrasco inclemente das antigas fotografias, guardadas com carinho e desvelo, mas não preservadas dos lastimosos fungos e manchas indesejáveis, inimigos vorazes para quem perdemos retratos que nos faziam sorrir, chorar e viajar no tempo, privilégios concedidos pelo nosso próprio existir, laborioso e incansável formador de vidas, afetos, desilusões, alegrias, nascimentos e óbitos. 

O poeta Carlos Drumond de Andrade, num dos seus poemas mais conhecidos e citados, como o faço neste momento, num trecho final dos seus versos em que relembra a sua cidade natal, escreveu: “Itabira é um apenas um retrato na parede, mas como dói!” 

Vivi em Amaralina durante mais de quarenta anos! Quando lá chegamos, no final da década de 1960, portanto, em plena ditadura, meus pais eu, e meus irmãos, o bairro já se modificava, redesenhavam suas ruas, havia pressa em lhe impor rapidamente feições urbanas, modernas, ações públicas e privadas que se operam no Brasil e, por conseguinte na Bahia, destruindo inapelavelmente o outrora construído, prédios edificados de acordo com o modo de viver daquele período, parece que fazendo-os desaparecer fisicamente, apagam-nos da memória coletiva, os deixando mais confortáveis para prosseguir na sua sanha destrutiva.  Mas ao aportarmos naquela antiga vila de pescadores, ainda podemos desfrutar o bucolismo das águas azuis de Amaralina, como cantou Caetano Veloso, também morador do bairro durante certo tempo. Esses ares bucólicos que atraíam veranistas, moradores do centro distante da cidade, construíram a proximidade do mar de ondas fortes, por vezes bravias, suas casas para o descanso dos verões plenos de sol e luz. O arrabalde não fora de todo desfigurado.

Fiz todo esse arrodeio proposital para lhes confessar que uma velha foto, pequenina, enviada pelo meu filho Tiago Queiróz, amaralinense de quatro costados – velha expressão que também vai desaparecendo e que significa de raízes profundas – na verdade retrato de uma época já datada, que, no entanto, permanece vivíssima em mim, na minha alma de filho desse pedaço de chão litorâneo da Cidade da Bahia, topônimo que era usual para designar Salvador. 

A fotografia fez surgir diante dos meus olhos, como se fora uma mágica, a figura de um velhinho baixote, de pele branca, exoticamente vestido. Na cabeça uma cartola, desgastada, a cobrir-lhe o cocoruto, mas deixando expostos pelas laterais da cabeça, os cabelos ralos e brancos. As roupas já puídas pelo uso cotidiano mostravam as possíveis dificuldades para exercer o seu doce e sedutor ofício. Vestia sempre sob qualquer clima e tempo, um velho fraque a chegar-lhe até a altura dos joelhos, quase a cobrir-lhe totalmente as perninhas curtas. Os olhinhos miúdos e astutos, as mãos ágeis e treinadas davam-lhe a destreza e o talento para produzir encantos, ilusões e provocar o imaginário de crianças e adultos, idosos ou jovens. Pouco falava e quando o fazia emitia um tom de voz muito baixo, quase imperceptível, pelo menos é assim que recordo. Suas aparições, sim, eram aparições, nos mais diversos pontos daquela Amaralina instalada no presente, entretanto, não de todo desvencilhada do passado, despertava curiosidade e produzia uma felicidade lírica, ingênua, visíveis pelo saltitar dos pequenos que cercavam o Mágico, o doce personagem real e presente nas nossas vidas, o velhinho encantado e encantador. Não sei o seu nome de batismo, de onde teria vindo, sei que era um enviado do imaginário, um despertador de sonhos, um agente ainda que temporário da felicidade. A foto que tenho agora sob minha visão mostra-o em pleno ofício, à frente de uma menininha, cujo olhar é totalmente dirigido a ele, o nosso Mágico, o criador peregrino, o artista despojado de riquezas, passageiro de uma vida materialmente dificultosa, mas um doador generoso de quinhões de alegrias e felicidades. Não sei se já partiu ou se longevo ainda vive, envolto por sortilégios e magias que só seres raros como ele se tornam merecedores. Saudades meu velho!!!!!!

Manoel Neto, julho de 2020.  

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Manoel Neto
Colunista Manoel Neto - Historiador e membro do centro de estudos Euclides da Cunha da UNEB | Morador do Nordeste de Amaralina.