Todo Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro

“Todo Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro”, escreveu Marcelo Yuka em uma velha canção da banda O Rappa. Na periferia de Salvador, os versos do músico carioca, falecido no ano passado, ecoam em cada beco ou viela. O som é metaforizado no grito de desespero das mães de cada jovem negro assassinado pelas forças repressivas do estado nas favelas brasileiras, em especial no Complexo Nordeste de Amaralina.  

O caso ocorrido neste domingo (20), onde um Guarda Municipal imobilizou e expôs de forma agressiva e covarde um jovem negro, morador do Vale das Pedrinhas, escancara não somente o despreparo desses agentes, mais sobretudo o racismo estrutural vigente em nossa sociedade. A situação, inclusive se assemelha ao ocorrido nos Estados Unidos, onde um homem negro (George Floyd) foi sufocado até a morte por um policial branco. O caso ganhou grande repercussão e o motivou uma onda de protestos pelo mundo.

O acontecimento, que foi amplamente discutido também no Brasil, foi de forma categórica desvendado pelo advogado, filósofo Sílvio Almeida.

“O racismo tem a capacidade de estar presente e se incorporar ao cotidiano das nossas vidas, está oculto. Ele é normal, faz parte da ordem. Todo dia um homem negro é morto, essa violência é cotidiana. Mas, agora, estamos em um momento de tensão, em meio a uma crise, um ato de brutalidade foi filmado, os ânimos estão inflamados. Quando o mundo está em desordem, a ordem pode nos chocar. Não há mais fumaça escondendo, o racismo aparece e se coloca em confronto aparente com as nossas convicções morais. As pessoas se perguntam: “Como eu não pude ver isso?”. Elas descobriram que o racismo não é um desajuste, não é uma patologia. É o que organiza a vida delas de todos os pontos de vista”, disse Sílvio que é autor de uma indispensável obra sobre a temática do racismo estrutural.

O caso vivenciado pelo garoto na orla de Amaralina merece ser minunciosamente investigado e os responsáveis exemplarmente punidos. Nós aqui do Nordeste de Amaralina e região ainda temos em nossas lembranças o caso do “menino Joel”, que aos dez anos de idade teve sua vida ceifada após desastrosa operação policial. Outros “joel” foram para sempre silenciados dez anos após a tragédia. Por cada um deles, não podemos deixar mais esse caso passar impune.

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU