JOSÉ MARIA: “Sou apaixonado por Oxóssi. Todo mundo que me pergunta digo que sou de Oxóssi”

Na terceira reportagem da série sobre o povo de santo do Nordeste de Amaralina vamos contar a história de Pai José Maria

Foto reprodução NORDESTeuSOU

Fomos entrevistar Pai Zé Maria na tarde de uma sexta-feira, 23 de março. O babalorixá nos recebeu em sua sala, no final de linha da Santa Cruz. Fiquei na porta à sua espera. Quando ainda de longe Zé Maria avistou um filho de santo seu, vestido de preto em plena sexta-feira, dia de Oxalá,  ele nem esperou chegar perto para passar o sermão: “Estou adorando… Achando lindo você vestindo isso hoje. Logo você de Oxalá…”. Esse é Zé Maria que se autodefine como uma pessoa “estourada”. “Se você me fez aqui agora, pode estar quem estiver, que você vai ouvir agora. Por que eu vou deixar para amanhã? Não tem negócio de conversar depois”.

José Maria Araújo de Souza nasceu no dia 21 de maio de 1950 em Salvador, no bairro do Pero Vaz. Filho de uma tradicional família do bairro era o terceiro dos onze filhos do casal. Seu pai, Alfeu Alves de Souza chegou a ser candidato a vereador. Seu Alfeu frequentava um candomblé na estrada velha de São Caetano. “Era filho de Obaluaê e sua mãe de santo era uma africana “dos orelhões e lábios grossos. Africana mesmo! Jejé, negona! Ela fazia todo ano a obrigação dele. De vez em quando ela ia lá em casa ela deixava num pote ou numa panela o sacrifício do orixá dele, que era feito, para ele tomar banho”, revela José Maria.  A família vivia bem, sem problemas financeiros ou outros tipos de sobressaltos. Seu Alfeu cumpria regularmente suas obrigações com santo. Em sua casa tinha um quarto reservado ao orixá. “O Obaluaê dele pegava ele toda segunda-feira. Ele chegava em casa, tomava banho, fazia as coisas do velho e arriava na prateleira que ele tinha, com uma imagem de São Roque, sentava na mesa e ficava com as mãos cruzadas na cabeça. Aí Obaluaê vinha nele. O quarto do orixá era rústico, não tinha piso, não tinha telhado e só tinha uma porta. O assentamento era dentro da terra. Era uma catacumba. Ele era assentado numa catacumba. Era uma coisa que fazia com que a gente temesse mesmo”, lembra Zé Maria.

Com o decorrer do tempo Seu Alfeu se descuidou. Deixou de cumprir as obrigações espirituais e começou a se desfazer de tudo. Foi quando “o velho” (como é chamado Obaluaê), contrariado, começou a cobrar o não cumprimento das responsabilidades do filho. “Éramos uma família tradicional lá do Pero Vaz. Meu pai era rico. Depois disso foi caindo, caindo… Até que chegou o dia em que Obaluaê desceu e disse a minha mãe: “Só vou dar sete dias para ele ficar vivo”. Minha mãe ainda se ajoelhou a seus pés e pediu que a matasse no lugar dele. Na outra semana meu pai morreu de infarto. A partir disso, eu e minha mãe, lutamos pela vida”. Zé Maria tinha apenas dez anos quando o patriarca se foi e desde então teve que amadurecer rapidamente, junto com a mãe e os irmãos, na luta pela sobrevivência.

Acompanhando uma tia materna que já morava no local, o jovem José Maria, sua mãe e seus irmãos vieram morar no Nordeste de Amaralina, mais precisamente no local onde hoje está instalado o posto de saúde e a delegacia. Chegaram no bairro no início dos anos 60. Sua mãe foi ganhar o pão trabalhando como empregada doméstica e o garoto José, com ainda 11 anos, a acompanhava. “Eu vim morar aqui no Nordeste logo depois que meu pai morreu. Ficamos numa situação critica, sem nada. A ponto de pedir esmola… Minha mãe foi trabalhar em casa de barão e eu acompanhando ela. Ela na cozinha e eu fazendo faxina dentre outros serviços domésticos. Fomos morar de favor. Acordávamos às 4h da manhã. Mas a gente superou”, relembra. Aos treze anos, José foi trabalhar, também com serviços domésticos, na casa de um casal alemão no bairro de Ondina. Foi nessa época que ele começou a sentir os primeiros sinais do santo: “Eu desmaiava na casa da patroa todo dia. Me levavam para o Hospital Getúlio Vargas e nada. Foi quando minha mãe me levou na casa da finada Cilinha, aqui no Nordeste, uma cigana que trabalhava com axé. Ela aí disse: “Esse seu filho é do axé e vai ter que fazer santo até os 21 anos. Se não fizer até os 21, ele vai morrer. A finada Cilinha, então cuidou de mim, me tratou.

Aos 15 anos, o jovem foi levado pela mãe para a casa de número 106 na rua Manoel Dias da Silva, na Pituba. No local residiam dona Iêda Marques e seu marido, o dentista Clóvis Marques. Dona Iêda precisava de alguém que ajudasse nos serviços domésticos da casa e o jovem José Maria seria essa pessoa. Em contrapartida ela prometeu à sua mãe que cuidaria do garoto. “Ficava lá durante o dia e a noite ia dormir em casa. Fui graxeiro da branca! Fiquei sete anos lá. Ela praticamente me criou. Brigava muito com ela, pois ela queria me educar e eu não queria por que ela não era minha mãe. Foi com o que ganhava lá que consegui fazer uma casa para minha mãe.  Eu fui quem praticamente enfrentei tudo e criei meus irmãos”, lembra o futuro babalorixá. Foi também com a ajuda do patrão e de um político conhecido que a família Araújo de Souza conseguiu levantar sua primeira casa própria: “Doutor Clóvis, dentista, mandou eu fazer o orçamento da casa para que ele pudesse nos ajudar a fazer. Achamos a doação de um terreno no alto do trator, que hoje em dia é uma pista que desce e sobe para Amaralina, e um político fez uma casa de bloco e telha para a gente”.  Três anos depois foi construído uma pista no local e José Maria e família foram indenizados.

Com o dinheiro da indenização comprou um terreno na Santa Cruz. Recebeu ainda uma doação de setecentos blocos. Entretanto, não tinham para onde ir enquanto a casa não fosse erguida. Foi então que Mestre Bimba, o famoso capoeirista, cedeu uma propriedade que ele tinha perto da sede do seu grupo, lá no Sítio Caruano. Nessa época, José Maria já frequentava o terreiro de Mãe Alice, uma das viúvas de Bimba, que foi quem posteriormente viria a fazer o seu orixá. Foi lá que foi apresentado ao famoso capoeira. Pouco depois, o terreno e os blocos foram trocados por uma casebre de taipa, também na Santa Cruz. “Não tinha outra opção. Era pegar ou largar”, explica.

Como o passar do tempo, a cobrança do santo foi aumentando e a profecia da cigana Cilinha ganhava força. O jovem Zé Maria seguia com problema de saúde. O processo até a feitura do seu santo ele mesmo narra: “Voltei a passar mal. Caindo na rua, babando… Disseram que era epilepsia, mas não era. Eu ia trabalhar, caia lá. Batia a cabeça, me levavam para o hospital e me traziam para casa. Eu precisava de saúde para trabalhar e ajudar minha mãe e meus irmãos. A mãe de santo chamou minha mãe e disse que eu precisava recolher para fazer o orixá senão eu poderia morrer em até uma semana. Ela então abriu a guarda, conversou com a família toda e concordou.  Fui então para a casa de uma mãe de santo chamada Omoluce de Obaluaê, onde passei cinco anos. Passei também pela casa da finada Elvira de Logun Edé. Foi então que caí na casa de Mãe Alice. Fiz meu santo com 22 anos. O terreiro dela era ali em frente ao Arthur de Sales”, recorda. Com a feitura do santo sua vida mudou. Começou a ter saúde e pôde então trabalhar sem problema. Saiu da casa de dona Iêda e foi trabalhar no colégio Pernalonga, na Pituba.  Apaixonado por culinária, resolveu fazer um curso no Senac. “Sempre amei cozinha, desde criança. Ajudava minha mãe cortando tempero e fui aprendendo. Trabalhei em diversos hotéis, no Meridien, logo que inaugurou. Trabalhei em restaurantes, trabalhei no refeitório da Telebahia, no Banco Econômico como cozinheiro…Tive um restaurante lá no antigo Mercado do Peixe.  Quando cheguei lá derrubei todos os outros boxes. Já cheguei arrebentando. Minha comida era sucesso. Tanto que foi feitiço por feitiço para cima de mim”, explica.

Até pegar o deká e se tornar babalorixá, muita água passou pela ponte. Zé Maria relutava em assumir tamanha responsabilidade, o que só veio ocorrer quando ele tinha 36 anos. Tão logo recebeu a obrigação, abriu sua própria casa. “Nunca passou pela minha cabeça ser pai de santo. Eu não queria. Briguei para não ser. O orixá foi quem quis. O orixá então cobrou que eu tirasse da casa da minha mãe de santo e eu fiz minha casa. Se o orixá exigiu que a matéria pegasse um deká é porque queria que abrisse alguma coisa. Não existe pegar deká e ficar na casa do pai de santo. Depois de sete anos que fiz o deká, Oxossi (Odé) pisou em terra e disse: Ou ele abre a casa ou vai virar pó. Quando Mãe Alice chegou na minha casa para inauguração do meu salão e viu a imagem de São Jorge, ela disse que não ia acompanhar pois não tinha raspado Oxóssi, que tinha raspado oxum. Sou apaixonado por Oxóssi. Todo mundo que me pergunta digo que sou de Oxóssi”, revela o babalorixá.

SUTÃO DAS MATAS – Foi quando ainda era abiã que o caboclo Sutão das Matas apareceu na vida de José. “Sutão me pegou e disse que ia trabalhar. Então, até antes de eu fazer orixá Sutão já trabalhava. Sutão das Matas já trabalhava, curava muita gente. Eu trabalhava, chegava quatro da tarde, e já encontrava muita gente já sentada esperando. Era 30, 40 fichas. Não cobrava nada. Era só charuto e a Malzebeer dele em cima da mesa. Tenho muita dedicação por meu caboclo. Abaixo de Deus é quem eu amo. Foi quem me suspendeu no candomblé. Faço o que ele quer”, rememora Zé Maria, que passou então a realizar sessões de caboclo na mesma casa, onde posteriormente viria a ser registrado o Ilê Axé Oromin.

CANDOMBLÉS DO NORDESTE – Defensor ferrenhos das tradições do candomblé, Zé Maria não titubeia em chamar o que chama de “modernidades” acerca da religião. “Antigamente o candomblé era mais candomblé. Era axé. Hoje é luxo, fantasia, folclore, paetês… Lá em Mãe Alice Maria Da Cruz batia candomblé sábado, domingo e segunda. Hoje em dia nêgo bate sábado, está cansado no domingo e não pode fazer reverência. Eu fui feito na antiguidade. Não me acostumo com essa modernidade de candomblé que vemos atualmente. Nunca gostei de exibição. Se você chegar no meu candomblé você não vão saber que sou eu o dono”. O pai-de-santo ressalta que frequentou muito poucos os terreiros do bairro. Ficava receoso de “rodar”, mas aponta algumas das casas que chegou a visitar: “Às vezes ia na casa de Neném do Boi…No finado Mangarueira. Eu não queria ir porque mal chegava e o caboclo me pegava . Quando começava a cantar: “ô segura, derruba eu…”. Eu já estava caindo. O povo já sabia disso e quando eu chegava já começavam a cantar.  O terreiro mais falado aqui era o de Cesar de Oxossi, Mãe Alice… Tinham muitos terreiros, mas eram pouco falados, pouco folclóricos”.

PRECONCEITO – O dissabor da intolerância e da discriminação é algo que todo o povo de santo já sentiu na carne. Mesmo Zé Maria, homem de personalidade forte e conhecido por não levar desaforo para casa, já passou por essa experiência. Como ele mesmo conta: “Já sofri muito preconceito, principalmente dos evangélicos. Hoje em dia somente melhorou porque eu dei testa. Eu sai batendo em todo mundo, dando patada em todo mundo. Cheguei na igreja arrastei mesa, arrastei tolha ai acabou. Me deixaram em paz”. Um caso em particular, vivenciado e narrado pelo babalorixá, é emblemático para evidenciar a maldade como é tratado o povo de santo, sobretudo pelos cristãos, e a mostrar a personalidade de “Seu Zé”:  “Nunca tive problema com a vizinhança. Só teve uma, que a coloquei no lugar dela. Estava fazendo meu barracão, tudo muito lindo, gastando tudo o que o orixá dava, aí uma crente aqui do lado disse que estava orando para eu não inaugurar o meu chiqueiro e queria ver Jesus deixar isso acontecer. Na véspera da inauguração eu bati na porta dela e disse: “Meu chiqueiro vai inaugurar amanhã e eu preciso de alguém para fazer a lama. A senhora está convidada”. Òóré Yéyé ó!, Zé Maria ou Okê Arô!, pai!

COMPARTILHAR
Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU