[Dina de Oyá]: “Estou aqui, rezo meu povo, ajudo na comida, ajudo no remédio e vou até o fim da minha assim. Não quero riqueza”.

Na quinta reportagem da série sobre o povo de santo do Nordeste de Amaralina vamos contar a história da rezadeira e curandeira Dina de Oyá

Foto: NORDESTeuSOU

Residentes em bairros humildes ou fora do perímetro urbano, as rezadeiras, benzedeiras ou curandeiras são donas de um grande saber religioso. Esse conhecimento é transmitido de forma oral, e é através dele, que essas senhoras se tornam capazes de curar males e reestabelecer o equilíbrio àqueles que as procuram. A cura pode ser feita por meio das rezas, rituais ou remédios naturais. Uma limpeza com banho de folha, um sacudimento ou um chá pode ser a solução para diversas enfermidades. “Mas cada caso é um caso. O orixá é quem diz se precisa de reza ou de remédio”, diz dona Iaiá.

Dinorá Florença dos Santos, mais conhecida como “Dona Iaiá”, ou ainda, “Dina de Oyá”, nasceu há exatos 76 anos no Nordeste de Amaralina, mais precisamente na Rua do Norte, número 179, local onde vive até hoje.  Filha do carpinteiro, Pedro Clodoaldo dos Santos e da parteira, Angelina Florença dos Santos cresceu nas ruas do bairro, onde corria, brincava subia nas árvores para tirar manga verde para comer. Também gostava de catar camarão no gereré em Amaralina e no Rio Vermelho. Sua avó, dona Senhora foi uma das primeiras baianas de acarajé da região. Comercializava seus quitutes no antigo abrigo do Rio Vermelho. Tanto sua mãe, Angelina, como a sua avó, Dona Senhora, têm raízes no candomblé. A primeira tinha um terreiro de caboclo e a segunda um terreiro de Angola.

Sua juventude foi nas rodas de samba e nas batucadas que saiam pelas ruas do bairro. Era sambista nata. “Sempre fui rainha do samba. Fui professora de coreografia da Escola de Samba Diplomatas de Amaralina. Ensinava as meninas a sambar. Sempre fui sambista. Saia nos ternos de Amaralina”. A época do Diplomata de Amaralina é lembrada com saudosismo e saudade, por dona Dina: “A escola de samba foi fundada em 1966. Eu estava lá desde a fundação. Carreguei pedra para construir a sede. O terreno era do finado Braúlio. Quem construiu foi Joãozinho Amaral. Os ensaios eram aos domingos e quintas. Segunda-feira era a reunião. Quinta enchia, mas o colosso era aos domingos.  Fui rainha do samba. Era a rainha da bateria.  Desfilávamos na Praça da Sé. Muito samba no pé. Até hoje tenho saudades. Não participo do carnaval do bairro, pois não vejo samba. Só essas músicas indecentes. Cadê o samba no pé? Os homens agora mexem mais do que a mulher…Pelo amor de Deus!”. Foi também na época do Diplomata de Amaralina que surgiu o apelido “Dina de Oyá”: “Eu estava no Diplomata, lá sambando. Chegou um radialista, chamado Jonas Madureira. Ele se engraçou para meu lado. Quando terminou o samba ele me chamou e perguntou: “Que santo é você? Que orixá é que você roda?”. Eu respondi: “Eu não rodo com orixá, mas tenho meu orixá que é Omolu com Iansã. Ele ai disse: “Seu nome a partir de hoje será Dina de Oyá”. E ficou”. 

O INICIO – Dona Dina de Oyá foi criada dentro do candomblé. Vivenciava com a mesma frequência as rotinas do terreiro de caboclo da mãe e do ilê da avó. “Eu vim no meio desse bafafá todo. Eu não acreditava e nem me misturava. Minha irmã virou mãe de santo. Minha prima também. E eu nada. Eu gostava de ir para o candomblé, pois sempre gostei de dançar. Mas nunca dei orixá, até porque não tenho. Orixá é quando você vai para a camarinha para raspar e fazer o santo. Mas é o santo que tem que aparecer para ver se você pode fazer ou não. Mas eu nunca tive! Eu não posso fazer orixá, porque já tenho. Foi o jogo quem disse”, explica. Iaiá presenciava as sessões no terreiro de dona Angelina, onde os caboclos Jiquiriça e Sutão das Matas promoviam rituais de cura para aqueles que lá chegavam. Foi através dessas experiências nas sessões de caboclo que ela tomou gosto pelo ritual de cura e de se fazer remédios: “Comecei a aprender a rezar com o caboclo de minha mãe. Eram os caboclos Jiquiriça e Sutão das Matas. Lá se fazia remédios, purgantes de óleo de ricino, purgante para tuberculoso, coco de boi ralado com leite de vaca. Fazia muita reza, dava sacudimento. Eu então fui aprendendo. Foi aí que despertou em mim esse dom de rezadeira e curandeira”.

Entretanto, foi somente após a morte da mãe e da avó, que dona Dina de Oyá começou a pôr em prática o dom que lhe fora dado por Deus.  Uma de suas filhas teve um problema que a impossibilitou de andar. Para fazer qualquer coisa tinha que ser carregada. Preocupada e Inquieta, Dinorá botou na cabeça que ia descobrir o que tinha a menina. Ela mesmo conta: “Me sentei aqui na porta e chorei pedindo a Deus e ao espírito da minha mãe que me mostrasse uma luz onde eu visse o que minha filha tinha. Nisso eu fui dormir. Quando é de madrugada eu estou sonhando com minha mãe pegando minha mão e passando na perna de minha filha e sentia um espinho. Eu acordei assustada. Quando o dia amanheceu, algo disse a mim: “Pegue um tomate maduro, pise nele, bote oléo de ricino, uma colher de farinha, faça uma papa e bote em cima”. Eu despertei e fui fazer isso. Botei na perna dela e amarrei. Agradeci, então, ao espírito de minha mãe e ao caboclo dela que me deram essa orientação. Quando foi mais tarde vi que a causa de tudo era uma lasca de pau que estava na perna dela. O buraco dava um dedo. Chamei a vizinhança toda para ver. Peguei um vinagre e lavei. Está minha filha boa até hoje. Esse pedaço de mulher que a gente vê aí”. Tempo depois um de seus filhos foi acidentado. Foi levado  ao COT, engessou a perna e retornou para casa. Passado um mês ele chorava e gritava de dor. Comprava-se remédio e nada. “Um belo dia, eu tô dormindo e ouvi algo me dizendo: “Tire esse gesso”. Pulei de cima da cama, fui na padaria, comprei uma gilete, botei a perna dele dentro d´água e fui cortando…. Tinha um bicho enorme. Botei “leite do cão” e curei meu filho. Tudo na intuição. Sem orixá me pegar, sem nada. Hoje meu filho tem a perna no lugar, que poderia ter sido amputada”, relata dona Dina. Daí não mais parou: “Nêgo então começou a vir aqui… A fama correu. Criança com “ventre caído”, obrando verde, vinham cá para rezar. Eu curava com a folha do algodão. Pessoas com “cobreiro” (doenças de pele), apareciam aqui para eu rezar. Você chegava aqui com erisipela, todo lenhado, eu já sabia a reza e o remédio que ia usar. Todos os remédios que faço vêm das plantas. Tenho o maior prazer. Levanto qualquer hora da noite para ir curar ou rezar. Essa semana mesmo já veio mais de dez. São 56 anos fazendo isso. Desde os meus vinte anos. ”. E qual o segredo? Para quem reza Dona Dina de Oyá? “Aí eu sinto muito, meu filho… Isso eu não digo. É o pulo gato. Eu dou a isca, mas vocês vão pescar o peixe”, responde aos risos.

Um outro caso, ocorrido há 49 anos com a filha de uma vizinha, não sai da memória da rezadeira.

A menina se queixava de uma dor. Na vizinhança corria o boato que a menina tinha feito um aborto. Se internou, voltou para casa e nada. Aflitos, os pais resolveram, então, mandar chamar Dinorá. “Mandei ela deitar no sofá e comecei a apertar a barriga e as pernas. Ela então gritou. Eu aí disse: Vou fazer um purgante para dar a ela. Se eu não matar, eu aleijo. Vocês aceitam?”. Elas concordaram. Fui no pé de mamoeiro da índia, raspei a raíz em três pedaços, cozinhei, botei óleo de ricino e fiz o purgante. Ela bebeu. Vim para casa e fui comer uma moqueca de peixe ali, onde hoje é a padaria. Nisso a mãe me gritou: “Iaiá, corre aqui!”. Eu ai pensei: “Matei”. Quando cheguei lá estava a menina gritando e rodando a casa toda de dor. Levei ela no banheiro. Quando ela sentou no vaso e defecou veio uma linha com um bolo de comida e uma agulha dentro. Foi um feijão que deram a ela preparado, um ebó. Eu abri o peito e xinguei o povo todo pelo falso que tinham levantado contra ela. Preparei um purgante e dei. Fiz ainda uma promessa a São Lázaro que se ela ficasse boa eu ia botar aquela agulha debaixo do pé de São Lázaro. Teve o caso também de uma que chegou aqui com o ouvido dessa altura. Peguei uma colher de azeite doce, botei no caneco, peguei o vinagre, esquentei e botei no ouvido dela. Saiu uma barata! Acredite se quiser… Ta boa hoje. Ela mostrou essa barata a Deus e o mundo (risos)”.

Foi ainda na época da juventude que surgiu uma outra paixão que ela levou para toda vida: a caridade. “Tenho pena do povo que passa fome. Tenho doze pratos de almoço que dou todo dia, além de dez cestas básicas todo mês. Muitos anos que faço isso. Não tenho nada do governo, nada da prefeitura. Eu rezo o Nordeste em peso.  Não cobro uma reza ou  uma limpeza a ninguém. Estou aqui, rezo meu povo, ajudo na comida, ajudo no remédio e vou até o fim da minha assim. Não quero riqueza. Não quero casa de lajé, não quero carro na minha porta. Quero ser essa que sou. Matar a fome de quem tem fome. Tenho fé em Omolu, que ainda terei uma ONG para matar a fome do povo. A fome tem cara de herege”, diz emocionada.

CANDOMBLÉ –“O candomblé para mim é uma religião maravilhosa que eu amo muito. Cresci dentro da religião. Sei raspar, sei pintar, sei catular, sei ensinar orixá a dá o nome, mas não pratico. Sou mãe pequena de Nanã, na casa de Mãe Rosinha. Mas, sou mesa branca. Só trabalho com espírito de luz, orixá de luz”, explica. Dona Dina destaca alguns dos terreiros do Nordeste de Amaralina frequentados por ela: “O de finada Aleluia, no final de linha aqui do Nordeste, onde hoje é o terreiro de Mãe Edemis. O do finado Afrísio, o de Mãe Zezé, o de Mãe Mariazinha e o de Mãe Piticá”. Iaiá ressalta como sendo o respeito (ou a falta dele) como a principal diferença entre os terreiros de antigamente e os de hoje: “Hoje você vai a uma festa e até antes de começar o candomblé todo mundo já está enchendo a cara. Acho isso uma falta de respeito”.

CAMINHADA –  A caminhada do povo de santo é definida pela rezadeira como um importante instrumento de conscientização sobre as tradições do candomblé. Precisamos conscientizar o povo de que o candomblé é uma religião. Os crentes estão querendo acabar e a gente não pode deixar”, ressalta Dona Iaiá que diz ter um bom relacionamento com os cristãos:  “Quando chegam aqui na minha porta eu digo logo: Sou do axé minha filha! Tem crente que vem aqui até comer. Chegam aqui para se rezar e eu rezo. Outro dia fiz uma comida aqui para o Caboclo, no dia do 2 de julho, o crente chegou aqui e caiu no xinxim de galinha”.

COMPARTILHAR
Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU