[NES /Eleições 2018] E você? Em quem vai votar?

Ele subiu o morro sem gravata / Dizendo que gostava da raça / Foi lá na tendinha / Bebeu cachaça / E até bagulho fumou / Jantou no meu barracão / E lá usou / Lata de goiabada como prato / Eu logo percebi / É mais um candidato / Para a próxima eleição... Cuidado na hora de votar... (Candidato Caô Caô - Bezerra da Silva)

Os sábios versos do velho samba de Bezerra da Silva ilustram perfeitamente o fenômeno que acontece  de dois em dois anos nas ruas do complexo Nordeste de Amaralina. Os becos, vielas e ladeiras do bairro são tomados pelos candidatos. Seja vereador, deputado, senador, prefeito ou governador: Vale tudo para conquistar corações e mentes do eleitorado. Forasteiros de todas as partes da cidade por aqui aterrissam. As promessas todas elas renovadas. Todos de olho nos cerca de 110 mil votos existentes na zona eleitoral que compreende a região. E você lembra em quem votou nas últimas eleições? O que, de fato, foi feito pelo seu deputado em prol da comunidade?

Comércio – O “toma-lá-dá-cá” durante o período de campanha é a prática mais corriqueira. Pouco importa o histórico e a relação do candidato com o bairro. Muitos literalmente comercializam o seu voto. É o chamado “voto de cabresto”. Têm aqueles que prometem o voto a um determinado candidato em troca de uniformes para o baba do final de semana, tijolos para reforma da casa ou até algumas benfeitorias em sua rua, tais como: asfaltamento, reformas de esquadrias e etc. Nesse último caso, a máquina pública é escandalosamente usada pelo candidato que é da base do prefeito ou do governador. O carnaval e as festas que antecedem ao pleito são utilizados pelos postulantes ao cargo público como instrumento de manutenção do seu “curral eleitoral”.  Com que moral depois se pode cobrar depois do deputado, vereador, prefeito ou governador?

Fé – Outra associação perigosa é religião x voto. A opção por um candidato em virtude da sua orientação religiosa se mostra bastante nociva ao eleitorado. É comum o candidato aparecer perante a comunidade religiosa e literalmente abusar da boa fé dos fiéis. Pouco se discute sobre os reais problemas e demandas do povo. O que vale é a fé. “Aleluia, irmão!”. Esse foi o caso do Deputado Estadual Sidelvan Nóbrega. Alçado ao alto do pedestal por pastores da Igreja Universal, o parlamentar obteve cerca de 4 mil votos aqui na região em 2014. Atire a primeira pedra aquele que souber os feitos relevantes realizados por Nóbrega  aqui no bairro durante esse último mandato. Infelizmente, seu caso não é isolado. O que não falta são “falsos profetas” e “salvadores da pátria”. No santinho de campanha fazem cara de anjo, mas quando eleitos se mostram verdadeiros capetas.

Comunidade –  Morador de Amaralina, o empresário Carlos Borges, é evangélico. Há cerca de dez anos frequenta a igreja batista. De acordo com Carlos, para ganhar o seu voto o postulante não necessariamente tenha que ser evangélico. “Não é essa a questão. A questão é um candidato que valorize a família e seja contra essas mazelas que estão acontecendo. Ninguém aceita seu filho ou sua filha ir para uma escola onde são eles é que tem que dizer se sua filha é menino ou menina. Isso é totalmente contra a família. Os evangélicos poderiam por si só eleger um candidato, mas não é essa minha posição. Minha posição é contra a ideologia de gênero, contra a liberação do aborto e contra a liberação das drogas. Que seja católico, que seja macumbeiro, para mim não importa. O que importa é que ele tenha uma posição a favor da família”, explica Borges que declarou seu voto para o presidenciável Jair Bolsonaro, o governador Rui Costa, o postulante ao senado Irmão Lázaro, além dos deputados Bacelar e Maurício Trindade.  “O voto em Bolsonaro é contra a corrupção e as mazelas no geral. Bolsonaro se mostra mais honesto. Já tem sete mandatos sem nenhuma corrupção. Vou votar em quem se quero um país melhor? Tudo isso que está acontecendo no país é consequência da implantação do socialismo na América Latina. Aparentemente o socialismo é uma coisa legal. Eu votei em Lula! Eu era favor do socialismo…”Oh, que bom! Todo mundo ser igual…”. Mas, com o decorrer do tempo pudemos ver que o socialismo deles são eles de Land Rover e eu a pé”, argumenta. Outro tema abordado pelo empresário e que suscita bastante polêmica é a questão do homossexualismo. O empresário é taxativo em sua colocação e rechaça os candidatos que levantem a bandeira da liberdade sexual: “Não somos contra os homossexuais. Nós temos é que amá-los. Agora, aceitar que o homossexual tenha mais direito que eu ou você, não existe. Assim como morre homossexual, morre hetero. O direito é para todos”. Sobre a corriqueira prática de misturar fé e política, Borges afirma: Pelo menos nas igrejas que eu vou não vejo pastor tomar partido e usar o púlpito como palanque eleitoral. Claro, que tem alguns que fazem… Muitos fazem. É de praxe! O homem antes de ser evangélico é cidadão e termina se envolvendo em política”.

Na contramão do discurso de Carlos, e numa linhagem mais progressista, está o advogado Rodrigo Coelho. Petista convicto, Coelho abraça a bandeira dos candidatos de esquerda:  “Direito dos trabalhadores, garantias individuais, luta contra extermínio da juventude negra, luta contra as diversas formas de violência contra a mulher e justiça social”, pontua Rodrigo. Haddad para presidente, Rui Governador, Wagner para o senado, além de Rosemberg e Bacelar para deputado estadual e federal, respectivamente, são os candidatos escolhidos pelo advogado.  Coelho, que é membro da comissão organizadora da caminhada do povo de santo do Nordeste de Amaralina, ressalta a importância de Rosemberg Pinto para a realização do evento e justifica o seu voto: “O deputado tem sido um parceiro importante para que a caminhada do povo de santo do Nordeste exista e se não fosse por ele não teríamos conseguido manter essa tradição viva. Aliás, não só da caminhada como do carnaval também. Não posso deixar de dizer também que é um defensor das minorias. Não tem nenhum problema quanto à ideologia de gênero, defende que as pessoas possam ser felizes, independente da sua orientação sexual, da sua cor ou da sua religião. Rosemberg é a favor também do aborto e da união civil entre homossexuais. Essas bandeiras são de suma importância para mim”. Provocado sobre a questão da venda e troca de votos e sobre relações entre política x religião ele esclarece : “É preciso entender que o país é laico. Por ser um país laico não podemos misturar religião e política. A política precisa, sim, garantir que toda pessoa possa professar sua fé. O eleitor precisa aprender que o voto nem vende e nem se troca. Toda vez que começa a campanha eleitoral a gente vê uma enxurrada de asfalto pelas ruas que passam quatro anos esburacadas e sem atenção do poder público. O que vemos são muitos candidatos que utilizam máquina pública, muitas vezes da prefeitura, para poder se promover”.

 

Moradora da rua do Gás, Nádia Lopes não titubeia em dizer que é contra os candidatos dito “forasteiros”. A jovem lembra, inclusive, que na eleição passada votou em um amigo do seu pai aqui do bairro mesmo. “Sou contra esses candidatos que vêm de fora. Muitos só vem no oba-oba, fazem uma festinha, pinta um murinho, asfalta uma rua e vai embora. Não sabem o que de fato acontece na comunidade, pois não moram aqui. Passamos muitas dificuldade com relação à infraestrutura. A questão do esgoto, do lixo… Por não serem daqui acabamos não tendo com quem reclamar , só nos restando a imprensa. Se tivesse alguém do bairro, que realmente a população viesse a  acreditar nele, desse um voto de confiança e botasse ele no poder , com certeza ficaria mais fácil. A comunicação seria direta”, explica.

Fã do ex-presidente Lula, Nadia se diz revoltada com o fato dele estar preso e impossibilitado de disputar a eleição: “Lula é o povo brasileiro. Guerreiro! É tudo uma vergonha, pois não tem que comprove que Lula roubou. Várias denúncias e provas contra Temer e ninguém dá andamento às investigações. Lula é a massa. O que, nós pobres da periferia, temos é por causa de Lula”.   Seu voto? “Gosto de Lula e Rui Costa. Para ser sincera não sou muito fã de Haddad, mas vou votar nele por ser o candidato de Lula. Se ele não for para o segundo turno é certo eu votar em Ciro. É a trinca: Rui, Wagner e Haddad”. E você? Em quem vai votar? Vou seguindo no ritmo de Bezerra da Silva: “Fez questão de beber água da chuva / Foi lá na macumba pediu ajuda / E bateu cabeça no conga / Deu azar / A entidade que estava incorporada / Disse esse político é safado / Cuidado na hora de votar…”

 

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU