Funk do Nordeste de Amaralina

Através de uma das parcerias desse disquinho, uma  super brecha se abriu, na união entre Nordeste de Amaralina, África do Sul e Lesoto

Existem mil formas de superar as dificuldades que nos afligem, para os jovens periféricos, a invenção para superar problemas fabricados historicamente e mantidos pelas forças de segurança do estado é uma questão de vida ou morte. É nesse cenário que o bairro do Nordeste de Amaralina, na cidade de Salvador, viu surgir há pouco mais de 1 ano um coletivo de Dj’s que tem levado o nome do bairro para diversos países.

O bando de inventores de uma sonoridade que dialoga com o trap e o funk, se amalgamando também em ritmos locais e globais, e com a cultura africana em diaspora, chama-se Trap Funk & Alívio. Formado por Dj Allex, Manno Lipe, Dj MG e Banha, os caras vem desenvolvendo um trabalho fenomenal e um movimento que tem aproximado a cultura preta em diaspora de um modo muito forte. Abrindo assim, novas perspectivas musicais e culturais que ao que parece tem passado batida por formadores de opinião profissionais e replicadores de release em geral, assim como àqueles que se alimentam fartamente de jabá.

O primeiro lançamento cheio da firma, o sensacional, agressivo e inventivo EP Armadilha (2017), infelizmente passou batido por grande parte do público e sobretudo por muitos produtores de conteúdo, digital influencers e jornalistas. Mas no entanto, não passaram longe do radar de produtores internacionais e de pesquisadores musicais do tamanho de um Carlos Palombini.

Apresentando nesse primeiro trabalho uma linguagem musical calcada no Funk carioca misturado ao Trap e letras que dialogam com a verdade nua e crua cotidiana da nossa juventude. A formação original da Trap Funk & Alivio contando com, convocou uma série de mc’s talentosos para dar vida lirica aos fabulosos beats que também misturam em suas produções diversas influências da música local e global.

Na responsa do mic, foram convocados os mc’s Orelha, Fayakayano, M2, Alien MFV, Mc Papo, Mc Rôa da V.M, Mannolipe, Mc Tezouro,Morena Leraba, Mankind e Mc Alemão Galego. Essa tropa pesada, aborda diversas perspectivas de um cotidiano violento fruto do combate as drogas dentro de nossas favelas. Mostrando em suas músicas a força de sua arte, a visão clara de todos os problemas que lhes encurrala, mas também abrindo brechas.

Através de uma das parcerias desse disquinho, uma  super brecha se abriu, na união entre Nordeste de Amaralina, África do Sul e Lesoto, pequeno país montanhoso do continente Africano. Através da parceria entre TF&A e os cantores Mankind e Morena Leraba, figura que já trabalhou com nomes que vão de Spoek Mathambo à Damon Albarn, a faixa presente no EP, foi premiada pelo Jameson Music Video Grant de 2017 e recebeu um videoclipe fascinante.

Neste ano de 2018, a parceria iniciada três anos antes, com o o produtor Kashaka se fortaleceu e trouxe um novo fruto, maior. A nova parceria gerou mais um EP colaborativo entre TF&A & Kashaka – BOTA KARA (2018), muito pesado e mais uma vez seguindo esse caminho foda de experimentações e entre cruzamentos de líricas e ritmos.

Composto de 4 faixas, BOTA KARA (2018) traz alguns outros atores como a figura de proa da atual renovação do pagodão baiano, Raoni Knalha (ATTOOXXA). O rapper Pyroman e o Choppy Chan, além do Mc Papo, Nikima, Betho Wilson e mc Ouro, são outras figuras que apresentam suas rimas, em francês, inglês e português.

A estética de cores neon é algo presente nos dois eps, em sua programação visual que não mexe em nada com a origem do coletivo, pelo contrário a exalta. Boné e tactel, tudo naquele verde cana que representa e muito um visual que os meninos e as meninas aqui curtem.

Mas não precisa acreditar em mim não, vejam o clipe pedrada dirigido por Rafael Ramos, aqui abaixo:

Mas as coisas não ficaram por aí, pois 19 dias após o lançamento do último EP, mais um lançamento pesado veio a tona, TrapFunk&Alívio x Moma – BAFRO (2018). Proliferando seu som, encontrando aliados em diversas partes e produzindo um groovão batendo tudo. Nesse último trabalho a associação e colaboração – signo de produção do coletivo – foi com o sudanês radicao em Nova York Dj Moma. Apresentado ao coletivo baiano pelo Kashaka, eles se uniram na produção de um disco bastante interessante e que traz outras inserções ritmicas ao trabalho.

Dessa vez, as vozes foram: Teekay The Newborn, Mc Sagat, Fellabrown, Ouro, Jo Sarah, trazendo uma sonoridade diferente dos outros dois EPs. Inserindo ritmos latinos, samba, música eletrônica numa musicalidade já firmada, de um modo tão natural que por vezes pensamos estar diante de um outro ritmo. Mas o lance é que realmente estamos diante de um fato novo na música baiana e global.

Não atoa, em sites gringos voltados a cultura negra e ao global bass, o TrapFunk&Alivio é certeza, enquanto em nossa própria cidade ainda estão sendo descobertos. Há hoje, mais do que nunca e por diversos fatores, que vão da correria do dia a dia até o controle de uma midia de pautas paga, a seletividade sobre o que é o novo. Muitas vezes decidindo o que merece os holofotes, vendendo artistas que  muitas vezes se utilizam de formulas requentadas e que buscam a aprovação da classe média branca e universitária, buscando por sreferências que limpem qualquer vestígio real de favela e negritude.

Além desses três EP’s, os caras possuem uma infinidade de singles e algumas mixtapes, vale muito a pena pesquisar, pra não emprenhar pelos ouvidos e tirar a areia dos olhos pra música da Bahia, que realmente rompe padrões racistas, sociais, politicos e musicais. Música pra quebrar paredões invisiveis, de bermuda tactel (short batedeira) e boné verde cana da nike, kit de favela!

Matéria do Site : http://oganpazan.com.br/trap-funk-alivio-sem-ideinha-e-bagulhao-local-e-global/

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Redação NES
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