[BEBETO CERQUEIRA] “Só quem vai tirar o Nordeste de mim é a morte…”

Cantor, compositor e produtor cultural. Baiano, soteropolitano, nascido e criado no Nordeste de Amaralina. Bebeto é mais um expoente do celeiro inesgotável de talentos do bairro.

Carlos Alberto Cerqueira ou Bebeto Cerqueira (como é nacionalmente conhecido) nasceu em Salvador no dia 05 de fevereiro de 1975. Morou até os seis anos de idade na Chapada do Rio Vermelho. A morte prematura do pai fez com que o jovem e seus irmãos dessem um até breve ao bairro de nascença e se mudassem com a mãe para o município de Camaçari. A ausência do patriarca também acabou por abreviar a infância do garoto que logo cedo começou a trabalhar. Vendeu picolé, batata frita, catou ferro velho. Valia tudo na busca frenética pelo pão de cada dia. Mas nem só do pão vive o homem, diz um provérbio bíblico. No caso do ainda menino Carlos Alberto, nem só do trabalho. A infância também teve muita brincadeira, todas elas comuns a qualquer garoto do inicio dos anos 80: Jogar gude, pegar o baba, brincar de fura-pé, empinar arraia, e surfar, é claro: “Quem aqui da Amaralina que não surfa né?”, observa. Durante as farras com a meninada do bairro recebeu o apelido de “Zoião”. Ainda sobre essa fase, Bebeto lembra com carinho especial de uma passagem: “Teve um tempo em que eu e meu irmão, Xexéu, e mais uns amigos íamos mergulhar para pegar peixe lá na praia de Amaralina. Ficávamos visualizando o pessoal que estava na areia bebendo agua de coco, daí a gente criava uma situação de briga para pegar os cocos que o pessoal deixava vazio. Íamos para atrás das pedras, quebrávamos os cocos e comíamos. Era uma brincadeira, mas que matava nossa fome. Depois a gente se lascava na risada”.

A amor pela música veio cedo, como tudo na vida de Bebeto. Ele tem o hábito de dizer que já nasceu com música e justifica: “Chorar também é música”. Zoião destaca a importância do pai e de um tio forrozeiro na sua formação musical. “Meu pai não tinha ligação nenhuma com a música, mas gostava de ouvir coisas boas. Tive também uma grande influência do meu tio, que era sanfoneiro. Fazíamos um trio. Eu, ele e Xexéu e tocávamos forró. Isso na época que moramos em Camaçari”, lembra. De volta ao Nordeste, aos dez anos, Bebeto teve contato com o samba junino. A paixão pela música entrava definitivamente em sua vida. Como ele mesmo explica: “Quando retornei para cá, conheci o samba junino. Tinham o “Samba Reggae”, o “Samba Negro”, o “Boqueirão”, o “Criolo Enrolado”, o “Samba Duro”, dentre outros. . O samba junino é tudo em minha vida. Foi lá que aprendi com os meus mestres. Reizinho, Xexéu, Tonho Matéria, Mestre Odara…”.

Bebeto conta, que por conta da idade sua mãe não permitia que ele fosse aos ensaios, entretanto o som oriundo das rodas ecoava aos quanto cantos do Nordeste e adentrava a porta de sua casa. Era assim que tinha acesso às músicas. Foi assim também que o ainda moleque criou um projeto chamado “ Samba rua”, na Chapada do Rio Vermelho: “Eu tinha uns dez anos de idade. Fazíamos uma baderna com latas, balde, bacia. Cantávamos as músicas dos sambas juninos. A gente decorava as músicas, amarrava um fio no balde, arrumava um pedaço de cabo de vassoura, enrolava um pano, fazia uma baqueta e aí haja barulho na rua. As velhinhas juntavam o pinico de mijo e jogavam na gente (risos)”. Aos 13 anos, o jovem Bebeto já começava a se aventurar em rodas de samba e nos arrastões juninos que faziam ferver todo o bairro. Foi na nessa época que acabou fazendo parte de dois grupos de samba junino: o “Samba reggae” e o ‘Samba Negro”.

Entretanto, aos 16 anos, mais uma surpresa. Bebeto se tornaria pai. “Não curti muito minha adolescência por que me tornei pai precocemente. Com 16 anos eu já era pai e tive que assumir uma família. Muito trabalho para comprar leite Ninho”, conta Bebeto que por cinco anos trabalhou na Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba). Tudo isso até a entrada definitiva da música no seu caminho. Em 1991, ingressou nos vocais da banda “Cheguei Pra Ficar” e literalmente embarcou no universo musical. “O Cheguei Pra Ficar foi o pontapé inicial para a minha carreira musical. Isso nos anos 90. Cantávamos o pagode que na época bandas como o “É o Tchan” e o “Terra Samba” também faziam. Estouramos várias músicas como “Torto todo mundo”, “Treme Treme” e “Catinga Sarigué”. Músicas que posteriormente fizeram parte de vários discos e que venderam cerca de 4 milhões de cópias com o Araketu, a Patrulha do Samba entre outros artistas”. Cerqueira gosta de ressaltar também a grande influência que o seu irmão Xexéu, ex-vocalista da Timbalada, teve em sua trajetória: “A influência de meu irmão em minha carreira foi total. Sempre fui fã do artista Xexéu. Quando fiz sucesso muita gente achou que era somente por ser irmão de Xexéu, mas não foi nada disso. Como meu timbre de voz é parecido com o dele, diziam que foi ele quem gravou para fazer sucesso”.

Ainda no bairro participou do bloco afro, Zanzimbar, no Vale das Pedrinhas, onde tocava percussão. Saudosista, Bebeto lembra com saudade desse tempo: “Fazíamos som em todos os cantos. A oportunidade que eu tinha para mostrar para a galera se eu estava bom, se estava melhorando e se estava chegando em algum lugar era fazendo meu samba em vários lugares, principalmente nos jogos de futebol no campo do Vale das Pedrinhas. Onde tinha evento eu estava lá. Não alcancei a época do Diplomatas de Amaralina, mas tinha o Clube do Vale, a própria Miralva na Chapada. Tinha muitos sambas espalhados pelo bairro. Na feirinha, na Olaria…”.

Dando seguimento à sua carreira, Bebeto passou ainda pelas bandas “Treme treme”, Balagandã, “K entre nós” e “X-tudo Samba de roda”. Adiante, em parceria com parceria com Ebermario Barbosa, Menino Sinho, Zidane e Nagô, Bebeto dirigiu um projeto no bairro do Candeal chamado de “Zap Eletrônico”. Até que em meados de 2010 tomou a decisão de fazer carreira solo. “Denominei meu nome artisitico como Bebeto Cerqueira. Cerqueira é sobrenome do meu avô paterno. Fiquei em Salvador durante dois anos trabalhando meu nome e resolvi ir para Brasília. Sou meu empresário, meu produtor, meu sócio, cuido dos meus lucros e dos meus prejuízos”.

Pode-se dizer que foi em terras do Distrito Federal que a carreira do baiano decolou de vez. “Hoje lá em Brasília o nome Bebeto Cerqueira é altamente sólido. Trabalho muito por lá. Durante o carnaval tenho agenda de sábado até à quarta-feira de cinzas com projetos de blocos alternativos e contratação por parte do governo. Já recebi prêmio como cidadão candango. Fui escolhido pelo Ministério da educação para participar de um evento lá no MEC. Levei tambor para dentro do ministério da educação. Tenho uma ONG, chamada Tambor da Gente, onde cuidamos de mais de mil crianças. Acabei de finalizar o projeto do Dia do Samba, junto com a secretário de cultura do DF”, comemora Bebeto.

RESGATE DO SAMBA JUNINO – Bebeto lembra que entre o final dos anos 70 e metade dos anos 80, eram em torno de 40 grupos de samba junino em toda a região do Nordeste. O bairro era palco de diversos festivais de músicas. Todo grupo de samba tinha um tema por ano. “Lembro que teve um ano que o tema era balão. Daí veio o samba: “Como é bom São João na roça, colorir minha palhoça…”, recorda o músico. Ainda de acordo com Cerqueira se destacavam os grupos “Samba Reggae” e o “Samba Negro”, e além deles o Samba Elite que conseguia trazer para os seus ensaios muita gente famosa, pois seus integrantes já eram ligados à pessoas do meio artístico. “O samba junino funcionava da seguinte forma: tinha um ensaio semanal onde cada grupo ensaiava em um dia da semana, começando de sexta. Teve dia de começar até quinta. Quinta era a “Galera Samba”, sexta era “Samba Reggae”, sábado o “Raça Humana”. Domingo tinha o “Samba Negro”, o “Samba Pé”, dentre outros… Tinha também o dia de baile, na véspera do São João. No dia de São João e São Pedro a gente saia na rua, somente no gogo, no timbal e no tamborim. Meu irmão, Xexéu fez parte do Unidos do Capim. Aprendi muito com esses caras”.

Tradicionalmente, todos os anos, no mês de junho, Bebeto Cerqueira realiza o arrastão junino. O evento tem como objetivo primordial manter viva a chama do samba junino. Entra em campo a figura do produtor cultural: “Uma coisa eu posso dizer de coração: Eu sou Nordeste e busco preservar o lado cultural aqui do bairro. Não me vejo como uma liderança, mas sim como um agitador cultural. O resgate do samba junino surge da necessidade de eu buscar as minhas raízes. No evento que realizo em junho, conseguimos colocar vários artistas das antigas, que foram percussores de tudo isso. A camisa é trocada por quilo de alimento não perecível e doamos para a casa dos idosos”, explica.

CANDOMBLÉ – É normal a gente olhar para Bebeto e reparar as guias penduradas em seu pescoço. É ainda mais corriqueira a presença dos orixás em suas composições e em seu repertório. Se o samba e o candomblé caminham juntos, como Bebeto Cerqueira essa relação costuma ser ainda mais estreita. O próprio explica: “A ligação é muito grande. Os tambores rufam para os orixás e para que a gente possa levar alegria para o povo e trazer um qualquer para casa. Eu nasci no terreiro de candomblé, desde os seis meses de idade. Minha madrinha era mãe de santo. Mas eu não dei segmento. Não acreditava muito e apanhei muito por não acreditar. A religião me tocou de forma mais forte de 10 anos para cá. Fui suspenso por Xangó numa festa de Ogum. Hoje sou Ogã numa casa de Xangô lá em Cajazeiras. Costumo até dizer que sou o próprio Exu, às vezes”.

NORDESTE DE AMARALINA – O amor pelo bairro onde nasceu é cantado em verso e prosa pelo artista. O preconceito em relação ao bairro em nada tira o orgulho do artista que reafirma em todo lugar que chega sobre as suas raízes. “Já convidei pessoas para vir aqui e neguinho responder: “Você é maluco! Vou para porra de Nordeste! Ali só tem ladrão”. Em várias situações. Quando as pessoas perguntam onde você mora. Sempre faço questão de dizer de onde sou, ao contrario de muita gente que até em uma entrevista de emprego diz que é de Amaralina, não do Nordeste. Só quem vai tirar o Nordeste de mim é a morte”.

Um lugar especial aqui no bairro? “A Olaria… Ali é minha casa, onde me sinto bem o lugar onde sempre gostei de fazer o meu samba e brincar. Rever a galera. Gosto de ir no Red River ver Iemanjá. Tomo todas e volto para o Nordeste. Não saio do bar de Robertinho, na Olaria. Devo ter uma conta quilométrica lá. Rodo, rodo, rodo mais onde paro é aqui na Olaria. Precisamente, no bar Iansã. Lá o dinheiro acaba e a gente tem crédito. Aí fica fácil. (risos)”. Laroiê, Bebeto!

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