[Opinião] No Odorico, entendi que educação era muito mais que uma lousa

Por Rodrigo Coelho*

Ingressei no Odorico Tavares no ano de 2003. Havia acabado de sair do ensino fundamental na Escola Municipal Teodoro Sampaio, bairro da Santa Cruz, e para conseguir uma vaga na referida unidade nessa época era necessário se submeter a um “sorteio”. No meu caso, consegui através de uma coordenadora, pois havia sido sorteado para outro local. Passei a estudar no Odorico Tavares no turno vespertino e ali foi a mola propulsora para o meu futuro.

Sempre fui muito questionador e inquieto com o descaso que há na educação, já era assim quando sai do Teodoro Sampaio, onde tenho até a data de hoje, alguns professores inclusive. Quando comecei a estudar no Odorico percebi que não havia Grêmio Estudantil e passei a conversar com colegas recém conhecidos e professores sobre a necessidade de criarmos o nosso espaço de representação. A direção da escola à época nem cogitava a ideia e a criação do Grêmio foi o nosso primeiro momento de luta. Fazíamos as reuniões às escondidas no turno oposto e quase sempre enfrentando a resistência da direção.

Fundamos o Grêmio, onde me tornei a princípio vice-presidente e posteriormente presidente. Nomeamos o grêmio como “GEROT – Grêmio Estudantil Revolucionários do Odorico Tavares”. Passamos a questionar a omissão da direção da escola quanto ao descaso, uma vez que faltava tudo de material na escola, desde um papel de ofício até material básico de banheiro. Foram inúmeras as reuniões com a DIREC 1ª, o diretor da DIREC não aguentava nem ouvir falar nos alunos do Odorico e qualquer coisa fora do contexto, nosso instrumento de pressão era fechar o Corredor da Vitória. Rapidinho surtia efeito, pois ali mora a nata da elite soteropolitana.

Transformamos o Odorico. Realizamos campeonatos, aulas externas, show, apresentações, aulas de dança, teatro. Os estudantes buscavam o grêmio estudantil como caminho para dialogar com a direção ou até para se queixar de professores. Entendi que a educação era muito mais que uma cadeira e uma lousa.

No Odorico Tavares sempre tivemos um corpo de professores progressistas e comprometidos com a educação e que nos motivava a buscar um ensino público de qualidade.

Participávamos das greves de professores e, por algumas vezes, questionamos a APLB sobre o papel dela na discursão sobre a qualidade da educação. Entendíamos que não poderia ser somente uma questão salarial. Algumas vezes fomos vaiados por professores, dentro do ginásio dos Bancários.

Quando o Odorico Tavares completou 10 anos, passamos em todas as salas fazendo a famosa “vaquinha”, não era para comemorar, era para protestar. Não tínhamos recursos, então tudo era feito com a contribuição de cada aluno. Dez, vinte, cinquenta centavos era o financiamento para compra de material para fazer faixas e produção de material gráfico.

Na época, nosso lema era “10 anos do Odorico e nada para comemorar”. Fechamos a escola. Trancamos os portões às 7 da manhã, mobilizamos todos, fomos às ruas, para televisão e denunciamos o descaso da direção da escola e do governo. Pedimos a saída da direção, conseguimos… Mas também consegui à época um processo. Eu, com 18 anos era processado por uma antiga diretora que pedia na justiça indenização por ter perdido o cargo, sendo que o processo foi extinto porque a mesma não pagou as custas processuais.

Saí do Odorico Tavares e ingressei na faculdade de Engenharia, através de uma bolsa do PROUNI. Cursei apenas dois semestres e entrei na faculdade de Direito. Me formei, fui aprovado no exame de ordem, fiz pós-graduação em Gestão Estratégica de Políticas Públicas pela UNICAMP e Mestrado em Estado Governo e Políticas Públicas, FLACSO.

Tomei conhecimento do fechamento do Odorico Tavares através do contato de professores, colegas e amigos. Participei, talvez, do último ato daquele Colégio, o ato em defesa da manutenção da unidade e em defesa da educação. Encontrei amigos, revi professores dos quais me orgulho até data de hoje por ter sido discípulo e ter entendido o valor da educação. Alguns mais, outros menos. O corpo de professores do Odorico Tavares sempre foi exemplo de incentivo, progressismos e, antes de tudo, exemplo.

No Odorico Tavares tenho certeza que vivi os melhores momentos da vida acadêmica. Fiz amigos para a vida inteira. Relembro que nos reuníamos no teatro do colégio para discutir as melhorias para a educação. Por inúmeras vezes, subi no portão da escola para discursar aos meus colegas o motivo de protestarmos por uma educação mais justa e melhor. Participamos ativamente da “Revolta do Buzu”.

A turma do Odorico liderava as trincheiras, abrindo caminho a partir do Corredor da Vitória, Canela (Manoel Novaes), Barris (Senhor do Bomfim), Colégio Central e Colégio Mário Augusto Teixeira de Freitas. Fechamos por inúmeras vezes a entrada da Estação da Lapa.

Tenho plena convicção que se ficasse restrito apenas à periferia não teria vivido as experiências que vivi. Uma escola como Odorico Tavares é necessária para troca de experiências, vivências e, novos conhecimentos. Para mim foi divisor de águas e contribuiu imensamente para minha rede de amigos e para o que eu e meus amigos nos tornamos hoje, advogados, engenheiros, comunicadores, jornalistas, enfermeiros, assistente sociais, policiais, delegados, etc.

*Rodrigo Coelho é advogado e diretor jurídico do Nordesteusou

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Redação NES
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