Como é ser jovem no Nordeste de Amaralina

Como é ser jovem no Nordeste de Amaralina? Eis a questão. Como se comportam, o que fazem e o que pensam a juventude dos bairros periféricos soteropolitanos?

Alef Lima, 16 anos, também é morador da Santa Cruz.

Sempre colocados à margem, em todos os aspectos da vida social, os moradores dos bairros ditos populares são constantemente vítimas de estereótipos e preconceitos. Sempre procurar se superar e se reinventar dentro desses espaços são as palavras de ordem para os jovens da periferia que buscam ?se tornar alguém? e exercer plenamente a sua juventude.

Crimes, drogas e mortes. Essa é uma constante na vida desses jovens. Desde cedo eles são forçados a conviver com a violência e suas consequências. A infância e a juventude são, em muitas das vezes, encurtadas. Muitos são aqueles que ?se deixam levar? pelas imposições da mídia e do capitalismo. Dinheiro e fama se tornam o objetivo principal. Muitos sonham em se tornar o novo Neymar e muitas são aquelas que desejam seguir os passos de Gisele Bundichen. Vale também ser cantor ou artista de televisão.  O jovem da periferia se ver obrigado a amadurecer na marra e de forma precoce. A falta de oportunidades faz com que  muitos se deixem levar pela chamada  ?vida fácil? e embarquem no caminho errado. Mas, também tem aqueles que estudam, trabalham e desde cedo aprendem a trazer de forma honesta o pão para dentro de casa.

Geovana Carvalho, 18 anos, é moradora da Santa Cruz

Geovana Carvalho, 18 anos, é moradora da Santa Cruz.  Atualmente, a jovem trabalha na área administrativa de uma fábrica. Na opinião de Geovana, nascida e criada no bairro, o que falta na comunidade, primeiramente, é a palavra amor. ?Acho que falta muito essa palavra no nosso dia a dia. O amor ao próximo mudaria muita coisa?, explica. Para Carvalho, a violência tem grande impacto em sua vida. ?Ficamos à mercê da violência… Às vezes chegamos do trabalho cansada e quando quero sair para comprar ou resolver alguma coisa não posso por conta da violência. Ultimamente tenho ficado muito em casa por conta disso?, ressalta Geovana que costuma se divertir em shows gospel, saindo com as amigas, curtindo uma praia ou em passeios ao parque da cidade.   Para a garota, que recentemente foi uma das selecionadas para representar o bairro no concurso Garota Base Comunitária de Segurança, o fato de ser moradora de um bairro periférico impacta, sobretudo, na hora da seleção de emprego. ?Atrapalha muito na parte do trabalho. Quando você vai levar um currículo em uma empresa e diz que é da Santa Cruz as pessoas já te olham feio…?. Geovana diz não sentir os impactos do preconceito racial dentro da comunidade, mas quando sai a coisa é bem diferente: ?Graças a Deus aqui no bairro, não. Mas quando vou fazer alguma prova, vou à algum lugar ou até comprar uma roupa no shopping eu não sou bem recebida por causa da minha cor. As pessoas olham feio. Tudo isso é racismo. Quando vou sair tenho que me arrumar bem, pois já sou negra e ainda desarrumada??, diz a jovem que já saiu vencedora em alguns concurso de beleza aqui de Salvador. E para o futuro? Geovana responde: ?Meu sonho é ser médica veterinária e ser reconhecida nessa profissão… Cuidar dos animais é algo que considero muito importante. Também penso em me tornar uma modelo de passarela. Esses são os meus focos?. Boa sorte!

 

Alef Lima, 16 anos, também é morador da Santa Cruz.Alef Lima, 16 anos, também é morador da Santa Cruz. Apesar da pouca idade, Alef trabalha com o recepcionista em uma empresa, é produtor de uma banda de pagode local, além de estudar no Colégio Estadual General Dioniso Cerqueira.  ?Eu tento me comunicar ao máximo com a minha comunidade. Aqui tem muita gente capacitada, como em qualquer bairro nobre?, costuma dizer o jovem que recentemente fundou com outros colegas um jornal dentro da unidade escolar. Para Alef a violência se expressa de diversas formas dentro da comunidade: ?É marido batendo em mulher, um matando o outro, polícia matando inocente e coisas muitos piores?.  Questionado sobre como ele vê a questão das ações policias dentro do complexo, o jovem é taxativo: ?A polícia, às vezes, chega em nossa comunidade de uma forma tão bruta que eu me pergunto se eles são mesmos humanos. Mata filho na frente da mãe e pessoas que não tem nada haver.  Precisamos um pouco mais de união. Podemos mudar isso. Só depende de nós mesmos?.  E os planos para o futuro? ?Meu objetivo de vida é ser um cidadão de bem. Ajudar a minha família e a minha comunidade. Música e esportes são as minhas paixões. Tenho sonho de ser um dia ser um jogador de futebol ou músico?, sonha o obstinado garoto.

CIPÓ  – A Cipó Comunicação interativa, através de uma articulação com outras associações de dentro do bairro, criou a campanha ?Como é ser jovem no Nordeste de Amaralina??.  O objetivo é construir um plano de trabalho, para se pensar e se desenvolver ações dentro do bairro de forma que se valorize a juventude. A ideia surgiu a partir de um diagnóstico participativo que a Cipó realizou ao longo de seis meses, no ano de 2016, que teve como resultado as principais causas da violência comunitária no Nordeste de Amaralina. ?O que apareceu foi a questão da violência policial, não só na relação com o tráfico de drogas, mas a abordagem policial junto à essa juventude. A grosso modo o que as pessoas disseram dentro desse diagnostico, principalmente os jovens, foi de que pelo simples fato de ser negro, de ser jovem e morador do Nordeste a abordagem da polícia é absolutamente truculenta, violenta e violadora. Em cima disso, entendemos que precisamos enfrentar esse desafio, através da valorização da imagem da juventude e dos moradores do Nordeste de Amaralina?, explica Fernanda Colaço, Coordenadora de Projetos da Cipó.

De acordo com Colaço, o próximo passo do trabalho desenvolvido pela Cipó na região depende da elaboração de um mapeamento sobre o perfil desse jovem morador do Nordeste de Amaralina e região. ?Pretendemos provocar as diversas juventudes do bairro a dizer quem é esse jovem, quantos anos tem, como ele se relaciona com a sua comunidade, o que ele ver de melhor no Nordeste de Amaralina e também o que pode melhorar dentro desse território. Vamos nos orientar e fortalecer o nosso plano de trabalho e entender como vamos continuar atuando dentro do bairro. Queremos dar voz a essa diversidade de juventude e com elas poder estimular a opinião crítica sobre seu próprio território?.

Sobre as impressões até então colhidas a respeito da juventude do bairro, Fernanda nos fornece o seguinte diagnóstico : ?O que a gente percebe em primeiro lugar é um jovem com muito potencial, muita critica a ser feita sobre o seu dia a dia, sobre o seu processo formativo, sobre o seu projeto de vida… Ao mesmo tempo ainda falta muito espaço onde exercitar essa voz e essas ideias. Esse ser jovem do Nordeste de Amaralina expressa e exercita a sua opinião na medida que ele consegue… Seja através da música, seja através da arte, seja através da cultura. Mas, ao mesmo tempo, isso é o tempo todo cerceado. Seja pelos órgãos de controle, a segurança pública e as bases comunitárias, que sufocam os espaços de diversão e de lazer. É uma juventude cerceada e em alguma medida sufocada?, explica.  Colaço ressalta que o preconceito se expressa de diversas formas dentro do bairro. Seja pelo fato de ser pobre ou por ser negro. De acordo com a Coordenadora de Projetos da Cipó, o poder público é o maior violador de direitos dentro desse espaço, pois não garante que as políticas públicas cheguem e sejam desenvolvidas no local. Fernanda aponta às bases comunitárias de segurança como o sendo os principais agentes repressores dentro do complexo:   ?As bases comunitárias de segurança, que como a própria comunidade já falou, é a principal representação do estado dentro do bairro. Essas bases são extremamente violentas…  Ser jovem no Nordeste de Amaralina é desafiador, como em todos os grandes centro urbanos socialmente e economicamente mais desfavoráveis, onde a  comunidade, em sua maioria negra, sofre uma serie de violação e violências?.

 

Comandante da Base Comunitária de Segurança (BCS/Santa Cruz), capitã Sheila Barbosa

BASES COMUNITÁRIAS ? Questionada sobre a temática, a Comandante da Base Comunitária de Segurança (BCS/Santa Cruz), capitã Sheila Barbosa conta que há um ano as bases comunitárias foram convidadas a participar de um projeto da ONG CIPÓ, onde, inclusive, foi sugerido que o projeto Corra pro Abraço fosse direcionado aos jovens da Nova República, o que acabou ocorrendo. ?Antes a maioria dos projetos que chegavam só atendiam aos jovens que se encontram em locais de fácil acesso, ditos menos perigosos, pois até quem vinha aplicar o projeto/ação, tinha medo de interagir com eles, eram discriminados, relato que cansei de ouvir da própria comunidade?. Entretanto, Barbosa ressalta que ?ditas lideranças? exigiram a não participação das Bases no processo.  ?Será que realmente querem resolver o problema da relação entre polícia e comunidade? A quem interessa tal discurso de segregar? A quem interessa generalizar e colocar bons e maus policiais no mesmo ?pacote?? E por que os responsáveis pelo processo não nos procurou para dialogar sobre tal solicitação??, questiona. Sheila continua:   ?Primeiramente é se perguntar: a quem interessa tal colocação de que as Bases oprimem os jovens? Será que essas pessoas acompanham, vivenciam as ações e projetos das Bases? É importante refletir politicamente sobre o tema… Nem vou aqui enumerar as diversas ações e projetos das Bases Comunitárias da Região do Nordeste, são muitos, mas será que essas pessoas querem saber??

Sobre as demandas da juventude do bairro a Capitã Sheila, ressalta que os mesmos precisam, sobretudo, de oportunidade, respeito e cuidado. Barbosa esclarece que, a depender do local, o preconceito parte de dentro da própria comunidade: ?Já ouvi frases do tipo, vou lá embaixo não, ou seja, na Nova República, Mangueira, Emídio Pio, etc… Ou do tipo: não vou colocar meus filhos nas escolas de lá de baixo não… Lutamos pra desconstruir isso ferrenhamente. Por fim, a Comandante da Base Comunitária de Segurança (BCS/Santa Cruz) conclui:  ?É preciso dizer a verdade, sem manipulações e interesses pessoais. É preciso dizer aos que usam e/ou vendem drogas, que eles também podem estudar e andar de cabeça erguida, que a vida não se limita a apenas isso, que podem buscar o que lhes foi tirado de forma lícita, é preciso não condená-los a prisão ou a pena capital (morte), é preciso olhá-los com carinho e humanização.  Posso falar um pouco também das centenas deles que convivemos, dos que estabelecemos uma relação mútua de respeito, dos que ajudamos a realizar sonhos, dos que proporcionamos lazer, cultura, arte, através de idas a cinemas, teatro, museu, cursos, dentre outros, esses jovens certamente não concordam com falácias e discursos medievais que não agregam ou resolvem o problema da relação Polícia e Comunidade. É preciso olhar para frente…?

 

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU