Mãe Rosinha de Omolu: “Sou de Omolu com Oxum. Omolu é tudo para mim”.

É com a história de Mãe Rosinha de Omolu, ialorixá responsável pela parte religiosa da Caminhada, que o NES inicia a série de reportagens sobre o povo de santo do Nordeste de Amaralina

Foto Reprodução NORDESTeuSOU

O mais temido entre todos os deuses africanos. Omolu ou Obaluaê é o orixá das doenças, e também, das curas. Não por acaso, foi através do sofrimento, que   Rosiclei Santana Nascimento, mais conhecida como Mãe Rosinha de Omolu, descobriu na religião o caminho de toda uma vida.

Rosiclei Santana Nascimento foi nascida e criada no Nordeste de Amaralina, mais precisamente na rua José Inácio do Amaral. É a mais nova de cinco irmãos. Embora sua mãe, dona Zulmerinda fosse mãe-de-santo com terreiro aberto no Sítio Caruano, Rosinha foi criada de acordo com os dogmas da religião católica, tendo sido batizada, feito primeira comunhão e crismada na igreja São José de Amaralina. Dona Zulmerinda não queria essa responsabilidade para a filha caçula.  “Minha mãe tinha medo, uma vez que meus irmãos já estavam todos na macumba”, conta. A matriarca, somente “entrou” santo por conta de doença. “Tinha uma dor de cabeça que médico nenhum resolvia. Oxum pegou ela com nove anos de idade e teve que fazer o santo e cuidar da vida dela. Minha mãe morreu no axé sendo mãe de santo”, explica Rosinha. Entretanto, o caminho da garota já havia sido traçado, e à revelia da mãe biológica, era omolu quem guiava a menina.

Uma injeção má aplicada, quando ainda pequena, acabou por afetar um musculo causando uma paralisia em duas das pernas da jovem Rosiclei. Omolu já começava a marcar terreno. Ainda criança Rosinha caiu doente. O caboclo boiadeiro, entidade existente dentro das religiões de matriz africana, pela primeira vez entrou em sua vida e mandou que uma pessoa a levasse até o terreiro da mãe para tomar um banho. “Nesse banho que tomei, o boiadeiro disse que cuidasse de mim, porquê provavelmente eu tomaria conta de tudo aquilo ali, mas ninguém acreditou”, lembra.

Aos quatorze anos Rosinha perdeu a mãe e foi morar em definitivamente com as tias. Tinha uma vida normal como de qualquer outra adolescente da época. O recado do caboclo boiadeiro não foi levado a sério e a futura ialorixá seguia fora da religião. “Nessa época eu ainda não queria saber de candomblé”, recorda. No final da adolescência e início da vida adulta Rosiclei começou a sentir o peso da responsabilidade que carregava em sua ancestralidade. Omolu fazia valer o peso de sua fama. “A padilha começou a me pegar. Eu ia para rua e fazia um salseiro”, conta Rosinha. A tia, que vendia quentinhas no hospital psiquiátrico Juliano Moreira, e estava habituada como casos similares, começou a supor que a sobrinha estava ficando louca e a levou para lá. A experiência na unidade psiquiátrica é contada pela própria: “Chegando lá o médico disse que eu estava com distúrbio e resolveu me internar para fazer um tratamento de sete dias. Quando eu incorporava a padilha, eu dava em auxiliar de enfermagem, arranhava médico… Era tudo para me forçar a entrar no candomblé”. Entre em cena o babalorixá, João Luis. Amigo de longa da data da família, João Luis não aceitava o fato de Rosinha estar internada, uma vez que, para ele a questão era espiritual. “Meu futuro pai de santo, João Luis, que já era aqui de casa, sempre dizia que alguém tinha que assumir as coisas de minha mãe e estava parecendo que essa pessoa era eu”, ressalta Roscilei. Após visitar jovem no hospital, João Luis chegou em casa e foi ao jogo de búzios. Ogum deu o recado: Ou Rosinha saia dali ou morreria ali dentro.

E foi graças a intercessão dos orixás que o babalorixá conseguiu aquela que brevemente se tornaria sua futura filha de santo de dentro do hospital. “ Quando sai do Juliano fui para a casa de Pai João Luis, fiz ebó e fiquei me cuidando. Passei a frequentar a casa quando tinha sessões. Fiz o santo um ano depois. Mas eu ainda não queria entrar de vez…”, lembra. Após a feitura do santo, o caboclo boiadeiro pela segunda vez apareceu na vida de Rosinha. A agora “iaô”, nome dado aos já iniciados na feitura de santo, mas que ainda não completaram o período de 7 anos da iniciação, começou a incorporar a entidade que outrora era de sua mãe. Com o caboclo boiadeiro Rosinha começou a fazer sessões e a ganhar os seus primeiros seguidores. “Eu dava sessão uma vez por mês. Eu já tinha muita gente que me acompanhava e que acreditava no meu caboclo e na minha padilha”, relata. Em paralelo às sessões, a vida de Rosiclei seguia seu curso normal. Trabalhou como copeira no Hospital das Clínicas e como auxiliar de serviços gerais no Hospital português, além de condimentadora no MC Donalds. Mas aquele que regia sua vida ainda não estava satisfeito. Omolu queria mais. E a cobrança viria de uma forma já conhecida: através da doença.

Já casada e mãe de dois filhos, Rosiclei vivia uma rotina dentro dos padrões da normalidade. Intercalava o trabalho, com o qual tirava o seu sustento, com as sessões onde atendia montada pelo caboclo boiadeiro e pela padilha. Até que um dos filhos caiu doente. “Quando meu filho caiu doente, eu já tinha 5 anos de santo feito, o santo queria que eu abrisse casa. Meu filho teve uma virose que medico nenhum achava a bactéria responsável. Emagreceu e chegou ao ponto de não conseguir ficar mais em pé. Examinaram ele todo e não acharam nada no menino”.  Foi quando, o seu pai-de-santo, João Luis, disse que o garoto precisava urgentemente ser recolhido para fazer um ebó de egum. E como já é sábido que Omolu é o orixá das doenças, mas também é o responsável pelas curas, tão logo o trabalho foi feito e o menino apareceu curado. “Me venceram no cansaço. Eu fiz a promessa, ele ficou bom e eu abri minha casa. Tudo o que eu sei e que sou hoje agradeço ao meu pai, João Luis. Eu já tinha minhas raízes, de minha mãe, mas tudo que aprendi foi com ele”.

Em agosto de 2003, a casa foi registrada pela Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro como Centro de Caboclo. “Nunca quis ser mãe de santo. Minha casa foi registrada primeiro como centro do caboclo boiadeiro. Foi ele que acabou enchendo minha casa. Meu caboclo me pegava, fazia as sessões e chamava o povo para dentro de casa. Então, antes de eu ser mãe de santo e tomar deká, eu já tinha meus seguidores. O problema é que eu não queria ter a obrigação de raspar ninguém”. Em 2005, Rosiclei recebeu o deká e foi confirmada ialorixá.. O centro de caboclo deu lugar ao Ilê Axé Omin Oluô Tapalepé. Quem vê hoje seu terreiro não imagina que tudo começou numa casa de taboa com telhado de zinco. Além disso, hoje Mãe Rosinha de Omolu tem 43 filhos de santo raspados (feitos), além de cuidar de alguns filhos de santo de sua mãe. “Após me tornar mãe de santo mudou tudo. Eu passava muita dificuldade. Não conseguia mais trabalho nenhum. Além do que me tornei mais respeitada. Hoje não me arrependo de nada. Sou de omolu com oxum. Omolu é meu marido, meu amante… É tudo para mim…”, diz emocionada.

COMUNIDADE – Desde que fez o santo, ainda adolescente, Rosinha começou a frequentar festas e terreiros do Nordeste de Amaralina e região. “Frequentava muitos candomblés aqui no bairro. O de dona Juraci eu ia muito… De Helena de Xangô. De Zé Maria… A festa baraketu do Ilê Axé Omin Ogunjá, no sábado de aleluia, era uma festa tradicional aqui do Nordeste. Todos iam.  O povo de santo era mais humilde. Eu frequentava a casa deles e eles frequentavam a minha casa. Uns ajudavam os outros. Tinha mais respeito. Hoje não tem mais isso. É um querendo ser melhor que o outro”, relembra. As questões do respeito às tradições da religião são ressaltadas de forma veementemente por ela: “Está acabando o respeito. Você faz o santo agora e quando vê já é pai de santo. O povo está fazendo o axé de comércio. A pessoa chega com dinheiro, e o pai de santo dá o deká.  Pode chegar aqui com 100 mil reais que não dou deká de qualquer jeito. Eu não recebi assim… Eu batalhei tanto…”.

PRECONCEITO  – A perseguição e o preconceito ao povo de santo é histórico. Embora o Nordeste de Amaralina seja um bairro com a sua população predominantemente negra e, consequentemente com forte influência da cultura africana, a coisa não é diferente. “Já sofri muito preconceito. Eu era cercada de evangélicos aqui na vizinhança. Me perturbaram muito. Quando eu fazia minhas festas aqui, eles botavam a caixa de som do lado de fora e gritavam: “Queima senhor”.  Jogavam óleo ungido na rua, me diziam desaforo…. Nessa época eu não queria brigar. Prestei queixa contra eles e eles contra mim. Minha casa é registrada, então eu tinha direito de dar meu candomblé a noite. Depois da queixa me deixaram em paz.  Hoje, os que estão aqui, são todos meus amigos”. Uma situação vivenciada por ela num supermercado do bairro é emblemática: “Eu estava nos preparativos para uma festa que teria aqui em casa e sai de saia e de torço. Fui comprar frutas. Fui chamada de “mãe de chiqueiro”. Disseram: “Somos obrigadas a ficar na fila com essa mãe de chiqueiro?”. Eu era leiga e não sabia que podia dar queixa. Agora ninguém me diz mais isso não, pois eu dou uma queixa”.

CAMINHADA –  Ialorixá responsável pela parte litúrgica da caminhada do povo de santo do Nordeste de Amaralina, Rosinha ressalta que: “A importância da caminhada é de unir o povo do axé do Nordeste, além de mostrar para toda a comunidade a nossa religião e a nossa cultura. Que todos se unam mais, que tenham mais carinho pela nossa religião e que tragam paz para o nosso bairro”.  Atotô, Iyá Rosinha!!!

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU