Mãe Edinha: “Sou raspada de Oxóssi com Oxum. Entrei pela dor, não pelo amor. Foram as raízes”.

Na sétima reportagem da série sobre o povo de santo do Nordeste de Amaralina, vamos ouvir a história de Mãe Edinha de Oxóssi

Maria Georgina Carvalho de Jesus, mais conhecida como Edinha. Nascida em 23 de abril de 1969 é a filha única de Alice Maria da Cruz ou simplesmente Mãe Alice, umas das principais e mais conhecidas ialorixás da região do Nordeste de Amaralina. Alice foi também umas das viúvas de Manoel dos Santos Reis, o Mestre Bimba. Foi Bimba, aliás, quem assumiu o papel de pai de Edinha, que praticamente não conheceu o seu genitor.

Edinha nasceu no bairro da Baixa de Quintas, mas desde que se entende por gente mora aqui no Nordeste. Foi criada nas imediações do Sítio Caruano, onde residia. Maria Georgina ressalta que sempre foi uma “criança adulta”, devido à rígida criação da mãe: “Tive uma infância normal. Não participava de muitas coisas porque minha mãe era muito humilde, paupérrima mesmo. Nunca tive boneca. Desde cedo tive responsabilidade. Minha mãe exigia que eu cuidasse de mim mesmo, da minha higiene, das minhas roupas, de ir para o colégio…. Minha mãe era analfabeta, mas me cobrava tudo. Por isso nunca tive muito tempo de brincar”.  

Sua mãe trabalhava ajudando Mestre Bimba na academia dele, que funcionava lá no Terreiro de Jesus, atrás da igreja de São Domingos. Fazia os serviços gerais da academia, além de ganhar um trocado lavando e organizando a roupa dos alunos. Foi então que o famoso mestre de capoeira comprou o terreno para que ela estabelecesse o seu terreiro.  Daí em diante, Mãe Alice começou a se desligar da academia e passou a se dedicar somente ao terreiro. Foi assim, no ano de 1962, que surgiu o Oiá Padê da Riméia, situado no Alto da Santa Cruz, no Nordeste de Amaralina. Antes de iniciar as atividades no Oiá Padê, Mãe Alice era quem organizava apresentações folclóricas de candomblé, promovidas por Bimba, durante as festas de batizado e formatura do grupo de capoeira. “Eram exibições de capoeira com samba de roda e muitas vezes ele fazia um “candomblezinho” para turista. E minha mãe era a pessoa quem tomava conta. Mas era uma coisa somente de exibição. O axé mesmo ela só entrou depois que ele comprou esse terreiro para ela”, conta.

De acordo com Georgina, a relação com Bimba era de pai e filha. Entretanto, não teve a oportunidade de aprender a arte da capoeira com o pai. “Na minha época mulher não jogava. Só assistia. Aos domingos Bimba dava aula na sede aqui no Sítio Caruano e tinha as festas de batizado, de formatura. Ele fazia constantemente pois tinha muitos alunos. Eram dois, três grupos de batizado e formatura por mês. Na academia lá no Terreiro de Jesus eu não ia, pois diziam que era rua de “mulheres livres””. Da época da juventude, Edinha lembra com saudosismo das tardes de domingo na praia de Amaralina. “Ai meus Deus. A praia de Amaralina era a minha diversão. Gostava de ir lá para paquerar! Aquela praia de Amaralina dia de domingo. Aquele poço do Budião…Como eu gostava…”, recorda com saudades. Apesar de dizer que na juventude era o “cão de calçolão”, Edinha explica que tudo era feito dentro do limite, sobretudo, pelos padrões morais da época:  “Aquelas pernas de Alice se viam para correr esse Nordeste procurando Edinha. Eu aprontava. Mas com segurança. Naquela época a virgindade da moça era o tesouro dela e eu fui criada ouvindo que sexo era feio, imoral e indecente. Isso ficou em minha mente de uma forma que eu não sentia nem tesão. Gostava de namorar mais não sentia aquela vontade me entregar. As meninas de hoje não respeitam os mais velhos e não se dão ao respeito”.

Com apenas 19 anos, Edinha casou-se. Foi morar em Brasília, onde ficou por dez anos. Entretanto, logo ao voltar, sentiria na pele o poder do destino.

RELIGIÃO –  Maria Georgina estudava no colégio Cupertino de Lacerda. Foi na escola que teve o primeiro contato com a religião. “A religião fazia parte do ensino, na escola eu tinha aula de religião. Ia para as missas ao domingo no Rio Vermelho, na antiga igreja de Santana. Fiz primeira comunhão e tudo. Minha mãe também não interferia e até dava força”. Devido à forte influência católica, Edinha não gostava do candomblé.  Quando sua mãe iniciou as atividades no terreiro tinha apenas 13 anos. Ela participava de forma indireta, ajudando nas festas, mas não se envolvia nos fundamentos. Contudo, como diz a própria Edinha “as pessoas que têm raízes não têm para onde correr”. Assim que regressou de Brasília, logo na primeira semana, aconteceria um giro de Caboclo Boiadeiro na casa da mãe. O que se sucedeu durante o giro é contado pela própria sacerdotisa: “Eu fui dormir. O caboclo Jiquiriça me “panhou” dormindo e me trouxe para sala.  Foi a primeira vez. Eu estava com três meses de gravidez. A partir daí toda segunda-feira ele me “panhava”. Comecei então a participar das sessões que minha mãe fazia. Daí em diante comecei a me sentir mal durante as festas de candomblé. O orixá começou a querer aparecer. E quando menos esperei minha mãe fez meu orixá. Eu tinha uns 32 anos. Sou raspada de Oxóssi com Oxum. Entrei pela dor, não pelo amor. Foram as raízes”. Todavia, até a “feitura do santo”, Georgina relutava em aceitar o seu destino. Resistiu o quanto pôde. “Quando minha mãe dava candomblé para obrigação de algum filho de santo, e eu estava aqui sempre eu passava mal. Quando sentia os primeiros sintomas começava a chorar. O chão sumia debaixo do pé, o sangue fugia do corpo e a cabeça ficava desatinada. Perdia o equilíbrio do corpo. Depois que fiz o santo mudou minha personalidade. Sempre fui uma pessoa muito fechada, reservada. Nunca fui expansiva de me relacionar com todo mundo. Fiquei mais comunicativa. Comecei a ver o mundo de uma outra forma. Dizem que quando a gente se inicia no axé a gente renasce. É uma verdade isso aí. Passei a aceitar a viver e aproveitar mais a vida”, relata.

A perda do filho caçula, decorrente de um incêndio ocorrido em 23 de agosto de 1999, durante uma confirmação de ogãs no terreiro de sua Mãe, fez com que Edinha abandonasse o candomblé. O acidente foi provocado após as lâmpadas refletoras de filmagens, usadas por uma equipe de turistas americanos que filmavam a cerimônia, encostar nas bandeirolas de papel colorido fixadas no forro do salão. Na ocasião cerca de 50 pessoas ficaram feridas, entre as vítimas fatais o mais novo dos três filhos de Edinha, o único homem. “Meu filho caçula morreu nesse incêndio. Me revoltei e sai do candomblé. Botei a culpa nos orixás, nas pessoas…. Minha mãe, que sempre foi uma pessoa que não obrigava ninguém a nada, não se meteu. Eu abandonei o candomblé, não a minha mãe. Quando ela tocava eu vinha aqui. Se precisasse de algo, eu fazia. Mas não participava das festas. Aluguei uma casa e sai daqui”. Sua volta aconteceria tempos depois e seria definitiva.

Sua mãe, Alice, adoeceu. Sua filha única, Edinha, precisou então retornar assumir os cuidados da mãe, que ficou cerca de um ano e cinco meses de cama. “Nunca passou pela minha cabeça ser mãe de santo. Quando minha mãe faleceu nem obrigação de sete anos eu tinha feito ainda. Por falta de interesse meu. Com o seu falecimento, após o Axexê, os babalorixás e ialorixás que estavam aqui e jogaram, disseram que o cargo era meu e que eu tinha que assumir a casa. Relutei, deixei um ano a casa fechada, caindo telhado…. Meu deká fiz tem uns três anos. Quem me deu foi PaI Jorlando. Lá do Uruguai. Assim que recebi o deká de imediato abri a casa. Arrumei um dinheiro, consertei telhado, botei piso e fiz algumas modificações por necessidade”.

POVO DE SANTO –  Reservada, Mãe Edinha nunca foi de frequentar outras casas de candomblé, que não fosse o da mãe. Sobre os terreiros da região, a iyá fala sobre a perda da tradição, e explica sobre o processo de extinção de algumas casas de candomblé do bairro. “Muitos vinham aqui na casa de minha mãe. Juraci, Zé Maria, Célia…. Na época de minha mãe nessa Santa Cruz tinha para mais de dez candomblés. Naquele tempo havia união. As coisas foram se modificando dentro do preceito. Foi se abrindo muito. Se exibindo muito…. Se ostentando muito… E aí o candomblé foi perdendo o seu axé e a sua credibilidade. Além de casos em que os donos dos terreiros foram falecendo e não tinha ninguém para assumir. Outra coisa é que, sem querer recriminar, mas já recriminando mesmo, chegaram os missionários evangélicos que começaram a perseguir mesmo. Existiam os evangélicos que respeitavam os outros e não discriminavam a religião de ninguém. Os missionários chegaram arrasando com o candomblé”.

A mercantilização da religião é veementemente criticada pela mãe-de-santo que não polpa críticas para aqueles que fazem de tudo para lucrar em cima daqueles que buscam orientação espiritual: “A maioria das pessoas que estão bem no axé hoje é porque têm a cara de pau. É porque gostam de enganar. Por exemplo: Vai vir um cliente aqui para uma consulta e eu não vou me conformar de ganhar somente os R$100 da consulta. Eu vou dizer: “Se você não fizer uma limpeza de corpo imediatamente você vai ficar doente, vai ficar maluco, sua família vai morrer ou você vai perder seu emprego. É assim que as pessoas que estão bem no axé, com a casa cheia de cliente, fazem. E eu não sou assim. Me sinto tão bem quando chega um cliente aqui, bota uma consulta, eu ganho meu dinheirinho e aí eu digo: “Meu filho, você está precisando fazer uma limpeza de corpo. Eu te dou uma lista, você compra e eu faço o trabalho de graça e não cobro um centavo. Isso é uma coisa tão boa que eu sinto…”

PRECONCEITO –A questão do preconceito e da perseguição ao povo de santo é algo que tira Mãe Edinha do sério. “Sofro muito preconceito. Minha família sofre”, afirma. A ialorixá conta o caso envolvendo um de seus bisnetos, de apenas nove anos de idade, que é discriminado diariamente na escola Arthur de Sales, onde estuda: “Lá tem casos de crianças que estão proibidas pelos pais de brincar com ele porque ele reside em uma casa de candomblé. Porque ele é “macumbeiro”, como eles dizem. Isso me machuca…. Na semana passada mesmo eu falei pelo celular com a diretora do colégio, chorando. Quando é comigo eu aguento o porradão, mas meus bisnetos? Isso me mata. No ano retrasado, a irmã desse meu bisneto, também estudava lá e sofreu a mesma coisa. Como ela é uma criança de personalidade forte, ela se defendia. Numa certa vez os colegas estavam chamando ela de “macumbeira” perante a professora, ela aí reagiu dizendo: “Sou macumbeira, sim. Com muito orgulho e se vocês não pararem de me chamar de macumbeira vou fazer um feitiço e vou acabar com todos vocês! ”. Ela tem apenas dez anos! ”.

A importância da Caminhada do Povo de Santo do Nordeste de Amaralina é comentada pela sacerdotisa: “Eu acho que a Caminhada é bom para tentar acabar com esse preconceito. É uma forma da gente tomar o nosso espaço. Deixamos que eles se espalhassem muito. É uma pena que os nossos irmãos de santo e simpatizantes, não façam parte da caminhada para fazer “aquele” volume”.

E orixá, o que significa para ela? “O orixá significa tudo em minha vida. Tem hora que paro e penso que não mereço o orixá que tenho. Meu orixá não me cobra nada. Ele fica quietinho, no canto dele. Faço quando tenho e posso. Tomei um tiro, uma bala perdida, vou dizer que é castigo do orixá? Nunca fiz sessão de caboclo. Mas tenho que fazer…. É aquela coisa: se não for por amor, vai pela dor. Continuo do mesmo jeito… (risos) ”. Okê Arô, Mãe Edinha!

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU