Fábio Nollasko: “Era um menino tocador que dispensou Agôgô e o tambor para tocar lata…”

Não à toa, o compositor desse grande sucesso dos anos 2000, Fábio Nolasko é também filho da região.

“Era um menino tocador que dispensou o agogô e o tambor para tocar lata…”. No bairro do Nordeste de Amaralina, local onde a música e a batida do tambor correm fortes nas veias da meninada, os versos dessa canção caem como uma luva. A lata representa o primeiro contato dessa garotada carente com um instrumento. Não à toa, o compositor desse grande sucesso dos anos 2000, Fábio Nolasko é também filho da região. “A questão de “Bate Lata” é justamente o que a gente aprende nas ruas do Nordeste. O que a gente aprendeu ao longo do tempo. Quando menino eu tinha uma vontade já de querer tocar um instrumento. A gente pegava borracha de pneu e amarrava na boca de uma lata para fazer o som de tambor”, conta Fabinho.

Fábio Barbosa Nolasco, Fábio Nollasko (nome artístico) ou ainda, Fabinho, como é mais conhecido nas rodas de samba do Nordeste de Amaralina, onde foi nascido e criado. “Foi nesse bairro que vivi de tudo. Desde pequeno… Nordeste, Vale e Santa Cruz foram o meu celeiro”, costuma falar.  Foi na rua Boa Esperança, na Santa Cruz, que o jovem Nolasco viveu plenamente a sua infância: jogou bola, empinou arraia, jogou gude, brincou de fura pé e aprendeu a jogar baralho e dominó. Tinha também a “baba sagrado” de todo domingo de manhã na praia de Amaralina. “Depois escola né man? ”, salienta Fábio, que foi aluno do Colégio Estadual Manoel Devoto. No Devoto, Fábio foi vice-diretor de esportes do grêmio Zumbi dos Palmares.

A música sempre esteve presente na vida do garoto que ia às festas nos terreiros de candomblé da região para “comer do caruru, da feijoada de ogum e ver a galera dançar”. “Foi nos terreiros de candomblé que tive o meu primeiro contato com o tambor. Algumas pessoas se encantam com aquilo que lhe chamam à atenção. O me encantou naquele momento foi o tambor… eu descobri que tinham treze toques no candomblé, que cada santo e caboclo tem um toque. Isso é uma célula rítmica”. Fábio costuma ressaltar que os samba juninos também tiveram grande influência na sua formação artística. Dessa época e dos parceiros que ele conheceu nesse período ele lembra com carinho: “Foi aqui na rua Boa Esperança que tive contato com os sambas juninos. Tinha o ensaio do Samba Elite, na praça do Elite. Lá eu vi vários artistas que vinham para participar do ensaio. Tatau, Daniela Mercury, Simone Moreno, Beto Jamaica, Tonho Matéria, dentre outros… foi ali também que conheci Tote Gira, Jamoliva, Sandoval Melodia, Silvio Almeida, Joel Nascimento, Gal Sales, Xexéu… Bebeto eu conheci no tempo de escola…”.

Aos dez anos Fabinho já era roadie (aquele que carrega os equipamentos e executa as funções da preparação e montagem da aparelhagem nos palcos, antes das apresentações) na banda Raízes da Terra. Fábio lembra que ficava de longe, admirado, observando a galera tocar. “Já tinha a vontade de aprender violão, mas ninguém me ensinava e não tinha grana para comprar um. Minha paixão pela música surgiu a partir daí.  Comecei a tocar percussão. Liu Santana foi quem me deu os primeiros toques. Depois tive contato com outros percursionistas: Batata, Everaldo Aguia… tinha dez, onze anos de idade…”, recorda. A primeira oportunidade surgiu por conta de um músico que teve um probleminha e não pôde ir ao show. Nolasco então assumiu a “percurssa”. E daÍ não parou mais. Logo vieram trabalhos nas bandas Fascinação, Oba Oba e QG do Pagode. Surgiu então, a Timbalada.

Na Timbalada, Fábio ficou entre 1992 e 1995. Chegou lá no período de mudança de nome da banda que se chamava “Vai quem vem”. Começou na ala de efeito e depois passou para o timbal.  “Cheguei num período de transição. Brown estava começando a ensaiar os grupos. Tinha um grupo que tocava na Fonte do Boi, tinha um grupo que fazia programa de televisão e tinha um grupo que viajava para o exterior. Viajamos e fizemos muitas coisas legais. Aprendi muita coisa. Carlinhos estava sempre perto da gente passando um base legal e dando um toque. A sacada que ele teve de misturar timbal com uma base, bacorinha com outra, surdo com outra e colocar efeito pelo meio, ficou uma coisa linda, maravilhosa. A Timbalada é o que é até hoje”.

Da Timbalada Nolasco foi tocar bateria na banda Gente da gente, que teve Xanddy do Harmonia como cantor, e que posteriormente passou a se chamar Marrom Society. Lá assumiu a direção musical da banda e fez três composições: De ré pra mim, Galopou e Chamar de Amor. Depois do Marrom Society veio a banda Unskaraí. Como percussionista Fabinho passou por bandas como Lozzada, Bambalada, Salsalitro, Baianidade. Já como batera participou de trabalhos com Patrulha do Samba, Xexéu, Gilmelândia, Maristela Muller(GO), Patrícia Gomes, Reinaldo(Terra Samba), Beto Jamaica, Robsão (Blackstyle), Lú Costa(Nossa Juventude), Flavinho(Pagodart) e Juliana Muller. No seu trabalho como compositor podemos destacar as seguintes composições: Rebolado (Harmonia do Samba), Galopou e Chamar de Amor (Marrom Society), Bate Lata (Banda Beijo e Gilmelândia), Pirei (Patchanka), Dança Regueira (Cheiro de Amor), dentre outras. Atualmente Fábio Nollasko se divide em trabalhos paralelos: show de músicas suas que se tornaram hit na voz de outros artistas e a banda de reggae SalJahMaica.

 

BATE LATA –Bate Lata foi uma música composta em 1999, mas somente foi gravada no ano de 2000 pela banda Beijo com Gilmelândia. Foi composta por três compositores: Fábio Nolasko, Ivã Brasil e Gal Sales. “Lembro que encontrei Ivã Brasil na rua, na Santa Cruz, ali no Vale das Pedrinhas subindo para a Santa Cruz. Daí fomos para a casa de Gal Sales, que já não está mais entre a gente. Dissemos para ele: Estamos aqui com uma música para terminar. Um samba reggae massa… Mas está indo para um caminho que a gente não sabe como que vai ser”. Ele respondeu: “Pega o violão e vamos desenrolar aí. Estou terminando de fazer o almoço, mas vocês já podem ir adiantando”. Já tínhamos a primeira estrofe da música e a partir daí, Gal sentou com a gente e terminamos ela. O refrão foi formalizado por todos nós”, lembra Fábio.

Composição finalizada era hora de buscar quem gravasse. Primeiramente “Bate lata”, como foi batizada a música, foi levada para o Cheiro de Amor. Na época o então responsável pela banda, Windson, disse que era legal, mas que não era a “pegada” do Cheiro de Amor. O trio começou então uma verdadeira busca para tentar gravar a canção. “Acreditavamos que ela seria realmente um sucesso”, conta Nolasko. Após o Cheiro de Amor, o trio foi até Alexandre Lins, que na época estava fazendo a seleção do novo disco de Ivete Sangalo. Mais uma decepção. “Ele não escutou. Me lembro que ele disse que estava sem tempo. Fomos na casa dele. Ele pegou a fita botou dentro do bolso da camisa e nunca nos respondeu”, recorda. Por fim, Jomar Freitas, na ocasião tecladista e arranjador de Netinho, junto com Gigi, baixista de Ivete, escutaram a música e na mesma hora pediram que a fita e a letra da canção fossem levadas até a ME, editora de Netinho. “Editamos a música e banda Beijos gravou. Ganhamos o troféu Dodô e Osmar de melhor música. Continua tocando e fazendo sucesso até hoje. Está no repertório de Preta Gil, de Thiaguinho…”, conta orgulhoso.

Foto: Joaquim Dantas

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