[Dia da Mulher] Aline Silva e os Ringues da Vida

Mulheres do Nordeste de Amaralina

Aline Silva é moradora do Nordeste de Amaralina desde o dia que nasceu. “Saí da maternidade direto para cá”, costuma falar.  A hoje reconhecida líder comunitária, respeitada nos quatro cantos do bairro, começou cedo a sua trajetória. Aos 12 anos já ajudava a mãe, baiana de acarajé, a comercializar seus quitutes. Não resta dúvidas que o lado guerreiro de Aline foi herança da mãe, dona Maria Júlia da Conceição que com a venda do acarajé sustentou seus três irmãos, além dos filhos. “Tudo que tenho hoje eu agradeço a minha mãe que é baiana de acarajé. Sempre procurei ajudar ela. Quando ela saía para vender, eu era menor e tinha que ir junto pois não tinha com quem ficar. Ajudava carregando as coisas… O tabuleiro, a cesta…”, lembra orgulhosa.

Em paralelo ao trabalho com a matriarca da família Silva, Aline frequentava às aulas na escola Zulmira Torres. “Eu estudava pela tarde e a noite eu ia vender acarajé com minha mãe”, lembra Silva que estudou também nos colégios Sátiro Dias e Carlos Santana I e II. Sempre disposta quando o assunto era trabalho, Aline aproveitava as festas de largo para vender cerveja com a irmã: “Armavamos barracas e vendíamos tudo quanto é bebida. Nessa vida fiz de tudo um pouquinho, menos roubar e matar!”.

Com personalidade forte e de temperamento explosivo, não é de se espantar que a negona era muito pouco afeita a levar desaforo para casa. Era comum ver a garota trocando socos e pontapés com outras garotas e até garotos.  “Sempre fui brigadora de rua. Brigava muito no colégio. Saía para pular carnaval e colar no “batifun”. Gostava muito do Chiclete com Banana e da Timbalada. Isso me causou muitos problemas ao ponto de minha mãe querer me levar para o juizado de menores. Mas depois a gente vai amadurecendo e vendo que a vida não é nada disso”, conta.

A sua performance nas brigas de rua chamou à atenção do amigo Luciano, que perguntou a Aline se ela não tinha interesse de participar do treino de boxe na academia Novo Astral, de propriedade de Gilvan, que posteriormente viria a se tornar seu treinador e marido. “Eu fui mais com o intuito de aprender os golpes, não de competir. Com o decorrer do tempo, Gilvan me chamou e perguntou se eu tinha interesse de fazer parte da equipe de competição de boxe. Eu era a única mulher da equipe. Fui lutando, viajando pelo interior da Bahia. Minha primeira luta foi em Cachoeira. Ganhei por nocaute no segundo round.  Depois fui campeã baiana e brasileira. Na luta do título baiano no Balbininho o Nordeste em peso estava lá. Não podia unir o útil ao agradável, infelizmente o incentivo ao esporte era muito fraco. Não tinha nenhum apoio. Então, ou eu estudava e trabalhava ou eu treinava. Procurei focar então em estudar para ser alguém na vida. Mas não posso deixar de falar que tudo o que tenho devo ao boxe”, conta a vitoriosa atleta.

Mesmo após deixar de competir profissionalmente, Aline continuou ligada ao esporte dando aulas gratuitas para a comunidade. Começava então a sua carreira de líder comunitária. “Sempre tive vontade de ajudar. Comecei então a dar aulas de boxe gratuita. Parei de lutar, mas nunca deixei minhas origens. Fiz trabalho com mulheres aqui do bairro. Treino funcional na praia. Sabemos que o bairro é carente e que tinha muitas mulheres que não tem como pagar para fazer atividade física”, explica. O trabalho voluntário desenvolvido na academia fez Aline vivenciar experiências e situações bastante comum em bairros carentes como o Nordeste de Amaralina. Cada aluna com sua própria história, mas a miséria e a pobreza presente em quase todas elas. “Com isso tudo meu coração foi amolecendo… Passei a ter uma visão maior sobre essas questões. Senti a necessidade de procurar ajudar a minha comunidade”, salienta.

Aline gosta de destacar também o papel de educadora que desempenha durante os treinos que realiza, principalmente com as crianças: “Eu via o jeito que as mães levavam seus filhos… Muitas deixavam os filhos na academia para poder fazer as coisas em casa. Era o tempo que dava para lavar roupa, fazer comida. A gente se tornou para essas crianças um segundo pai. Tinha casos de filhos que não ouviam os pais, mas ouviam a gente. Então busquei aumentar o espaço da academia para tentar, não somente ampliar as atividades de boxe, mas sim educar aquelas meninas. Isso servia também para as mães, para que as mesmas soubessem como lidar com seus filhos em casa. Fazíamos dinâmicas de grupo dentre outras atividades”. A recompensa veio com o título que recebeu, por parte da comunidade, de “mãezona do Nordeste”.

Atualmente a academia Novo Astral possui cerca de 200 alunos, somado os três turnos. Ainda sobre o trabalho desenvolvido na academia a nossa campeã explica: “Aqui desenvolvemos projetos de boxe, capoeira e dança. Temos o trabalho para fazer campeão, mas o grande objetivo mesmo é formar cidadãos. Mas é claro que também temos, sim, o interesse de fazer atletas que possam futuramente representar nossa comunidade”. Cada vez mais engajada à causa dos moradores do bairro, Aline expandiu seu raio de atuação para além do esporte. Atividades de cunho sócio-cultural começaram a ser trazidas pela “mãezona” para dentro do Nordeste. “Posteriormente, comecei a fazer trabalhos culturais. Trouxe grupos de dança… Tudo no intuito de mostrar que aqui no Nordeste tem cultura. Tenho muito orgulho de levar o nome da minha comunidade para fora. Mostrar que o Nordeste de Amaralina não é um bairro violento, mas sim rico em esporte, cultura, lazer e coisas boas. É isso que buscamos mostrar. Num desses eventos fui convidada a fazer parte do Nordesteusou. Hoje sou coordenadora sócio-cultural do projeto. Agradeço pela oportunidade que tive de somar nesse site”, relata a negona que volta e meia representa o amado bairro em programas televisivos.

Que na semana da mulher, figuras com Aline Silva sirvam de exemplo e seja reverenciada por todos. Não premiar é punir. À Aline os nossos sinceros agradecimentos. Parabéns, negona!

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU