[Consciência Negra] Salve o povo negro do Nordeste de Amaralina

De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 75% dos habitantes da capital baiana são negros.

Vinte de novembro, dia da Consciência Negra. A data, além de representar a luta dos negros contra a discriminação racial e pela a igualdade social, reafirma a importância de refletir sobre a posição dos negros na sociedade. Esse dia não foi escolhido por acaso: Em 20 de novembro de 1695 morria Zumbi dos Palmares. A data foi uma forma de homenagear o importante líder negro do Quilombo dos Palmares. A data foi estabelecida pelo projeto Lei n.º 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003, sancionado em 2011 pela Lei 12.519/2011 durante o mandato da presidente Dilma Rousseff.

Cristiano Lima – Foto Reprodução Facebook

O historiador, mestrando em Políticas Públicas e coordenador estadual da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), Cristiano Lima, salienta que essa data foi achada e proposta pelo filósofo gaúcho Oliveira Silveira, durante um congresso do Movimento Negro Unificado (MNU). “O povo negro, então elegeu essa data como a data de luta pela nossa liberdade, democracia racial, igualdade e combate ao racismo. O 13 de maio não representa para o povo negro a liberdade.  A assinatura dessa jogou o povo preto nas favelas, sem emprego e em condições sub-humanas. Então, a nossa data de luta não é o 13 de maio, e sim o 20 de novembro que é o dia em que Zumbi deu a vida por nossa liberdade e onde o povo negro se reconhece”, explica Lima. Cristiano pontua também sobre a diferença entre preconceito e racismo: “O racismo é um processo estruturante na sociedade. Ele está estruturado no estado e na organização social, onde o negro tem que estar em um lugar e o branco tem que estar em outro. A grande questão é que em relação ao negro o preconceito se chama racismo. Discriminação é uma coisa. Preconceito é um negócio bonitinho que a estrutura racista inventou para nos colocar nessa caixinha”.

ESTATÍSTICAS – Os números apresentados pelos últimos estudos acerca da situação do negro no Brasil corroboram o que frisou Cristiano Lima. Homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no Brasil. De acordo com acordo com informações do Atlas da Violência 2017, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, população negra corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios. Atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Entre 2003 e 2013, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54%, ao passo que o índice de feminicídios de brancas caiu 10%. As mulheres negras também são mais vitimadas pela violência doméstica: 58,68%, de acordo com informações do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher, de 2015. Elas também são mais atingidas pela violência obstétrica (65,4%) e pela mortalidade materna (53,6%), de acordo com dados do Ministério da Saúde e da Fiocruz. De acordo Ministério Público do Trabalho, os pretos e pardos enfrentam mais dificuldades na progressão da carreira, na igualdade salarial e são mais vulneráveis ao assédio moral. Em média, os brasileiros brancos ganhavam, em 2015, o dobro do que os negros: R$1589, ante R$898 mensais. A crise e a onda de desemprego também atingiu com mais força a população negra brasileira: eles são 63,7% dos desocupados, o que corresponde a 8,3 milhões de pessoas.

De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 75% dos habitantes da capital baiana são negros. Entretanto, o número de negros assassinados cresceu 118% nos últimos dez anos no estado. Segundo o Atlas da Violência de 2017, 5.446 negros foram vítimas de homicídio na Bahia, em 2015. O genocídio do povo negro é ainda mais cruel nos bairros periféricos. Aqui no Nordeste de Amaralina, temos o caso emblemático do menino Joel, de apenas 10 anos, morto durante ação da PM no bairro.

Os casos de preconceito, não se restringem apenas a cor da pele, atingem a todos os aspectos da cultura negra. São vários os casos de terreiros de candomblé que são apedrejados, invadidos e destruídos. Recentemente, o terreiro de Oxumaré, um dos mais antigos da capital baiana, foi alvo da intolerância religiosa. O templo teve sua fachada pichada com a frase: “Jesus é o caminho”. Constantemente, pais e mães-de-santo são vítimas dos mais diversos tipos de agressão. Em entrevista recente ao Nordesteusou a ialorixá, Mãe Edinha de Oxóssi narrou um caso típico de intolerância, que teve um de seus bisnetos, ainda criança, como vítima: “Sofro muito preconceito. Minha família sofre. Meu bisneto, de apenas nove anos de idade, é discriminado diariamente na escola Arthur de Salles, onde estuda. Lá tem casos de crianças que estão proibidas pelos pais de brincar com ele porque ele reside em uma casa de candomblé. Porque ele é “macumbeiro”, como eles dizem. Isso me machuca….”.

COMUNIDADE – A origem do bairro do Nordeste de Amaralina está diretamente ligada à comunidade de pescadores do Rio Vermelho. Povo humilde, em sua maioria negros, que tiravam do mar o seu sustento. Quando no início do século XX o Rio Vermelho começou a ser cobiçado pela burguesia soteropolitana, os pescadores acusados começaram a migrar para as bandas de Amaralina. Acontece que Amaralina já havia sido loteada por grandes proprietários (entre eles a família Amaral, que deu origem ao nome do bairro) restando somente aos pescadores se abrigarem nas partes mais altas, onde hoje existe o circuito Mestre Bimba. Posteriormente, com o aumento da população, a comunidade foi se estendendo e formando novas invasões originando o que posteriormente seriam o Vale das Pedrinhas, Chapada e Santa Cruz. Lá instalados, a comunidade ali abrigada encontrou no lugar um excelente ponto para bater o seu candomblé, jogar sua capoeira dentre outros costumes trazidos pelos africanos e aqui “celebrados” pelo povo negro. O historiador Cristiano Lima, e também morador do bairro explica: “O Nordeste de Amaralina é considerado um dos bairros mais negros de Salvador, que por sua vez é a cidade mais negra, proporcionalmente, fora da África. O Nordeste nasce, exatamente, na resistência. O povo branco começa a morar na Amaralina e empurra o povo preto para o Nordeste. Podemos dizer, sem dúvidas, que o nosso bairro é um dos principais quilombos urbanos de Salvador”. Um salve aos heróis do povo negro! Salve, Zumbi dos Palmares! Salve, Dandara! Salve, Mãe Menininha do Gantois! Salve, Mandela! Salve, Milton Santos! Salve, Teodoro Sampaio! Salve, Abdias Nascimento! Salve, Carolina Maria de Jesus e tantos outros! Salve, o povo negro do Nordeste de Amaralina, mulheres e homens da nossa comunidade que fazem valer diariamente a luta dos nossos ancestrais!

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU