Conheça a trajetória do líder comunitário Gil De Leon

Gil de Leon: “A comunidade já sofreu muito com vereadores que se diziam representantes do bairro e nada faziam”.

Gil Sacramento da Silva nasceu em Salvador no dia 26 de outubro de 1970. É o sexto filho de uma família de nove irmãos. Seu Pedro Quirino e dona Maria Enedina, pais de Gil, enfrentaram todos os obstáculos possíveis para educar os noves filhos. “Sou de uma família pobre mas com princípios morais elevados”, costuma dizer aquele que viria a se tornar umas das grandes lideranças da comunidade do Nordeste de Amaralina e adjacências. Ainda na juventude o rapaz, passou a ser conhecido como Gil De Leon, apelido dado por amigas durante a Copa do Mundo de 1990.

Devido as dificuldades financeiras comum a grande maioria dos moradores da Chapada do Rio Vermelho, local onde morava, Gil logo aos 13 anos começou a trabalhar. Carregava compras na antiga Ceasinha. Aì não parou mais: passou a trabalhar como lavador de carro, foi caseiro, trabalhou em lanchonete, como faxineiro, vendedor, comissário de blocos de carnaval dentre outras coisas. Foi nessa fase também que o garoto se descobriu homossexual e começou a conviver com o preconceito. “Me descobri homossexual aos 13 anos e amo essa opção. Sofri muita discriminação, mas sempre encarei com olhar superior. Não ligo para as indiferenças alheias”, ressalta Gil. Negro, pobre e de origem humilde jamais baixou a cabeça e se deixou abater pelo preconceito.

O gosto pelas causas da comunidade e o perfil de liderança floresceu logo cedo no garoto. Nos anos 80, durante a adolescência e início da juventude, De Leon já liderava movimentos culturais na região da Chapada do Rio Vermelho. “Tinha um evento denominado Gincana da Juventude. Posteriormente foi criada a equipe Cá Entre Nós, que até hoje é lembrada por todos os adultos com bastante alegria.  Mostrávamos satisfação por morar nessa comunidade e permanecer nela com muita paz a alegria”, recorda.

Em 1993, uma série de atropelamentos na avenida Juracy Magalhaes Junior (em frente a Ceasa) despertou em Gil aquilo que viria a ser uma das suas características mais marcantes: o dom de lutar e protestar pelas demandas da sua gente. Foi a partir desse problema que o jovem idealizou o seu primeiro manifesto que viria a ser chamado “Passarela pela Vida”. No manifesto era cobrado da Prefeitura, então ocupada por Lidice da Mata, a construção de uma passarela. “Na ocasião tinha acontecido 10 atropelamentos em um mês e a gente pedia que a prefeitura tomasse uma providencia. De lá para cá tomei gosto pela situação e passei a fazer constantes reivindicações junto ao governo e prefeitura. Foi aí que surgiu esse título de líder comunitário”, explica.

Apaixonado pela comunicação e pelo jornalismo (Gil chegou a frequentar uma faculdade de jornalismo, mas não concluiu o curso) acabou adquirindo o status de fonte para várias jornalistas e repórteres. Tanto na imprensa escrita ou televisiva é comum a gente ver o líder comunitário em ação trazendo denúncias, fazendo reinvindicações ou anunciando algum tipo de campanha em prol dos moradores do bairro. Esse hábito começou em 1997 quando, empenhado em resolver o problema de um vazamento de água que acabou por se transformar numa grande cratera, Gil esbarrou na burocracia da Embasa e Sumac (empresa responsável por fazer o serviço de manutenção). Ambas as empresas se eximiam da culpa e faziam o famoso jogo de empurra. Já cansado e sem vislumbrar uma solução das autoridades competentes, o filho de dona Maria foi até o jornal A Tarde e fez a denúncia que resultou numa matéria de uma página. “Foi aí que veio a solução do órgão competente. Daí não parei mais. Sempre reclamando e buscando a imprensa para nos ajudar”.  Para Rita Batista, jornalista e apresentadora da Band/Bahia, Gil De Leon “é muito mais que um líder comunitário ele é um amigo da comunidade”. Sobre o líder comunitário ela faz o seguinte depoimento:  “Uma pessoa que não tem nenhuma pretensão político-partidária e que faz as coisas porque entende que a sociedade mobilizada é uma sociedade forte, que uma comunidade bem representada tem sim a possibilidade de ter todos os seus anseios alcançados de acordo com as vontades políticas. Então é por isso que ele incansavelmente fala com todos os políticos, independente do partido. Acho ele uma das figuras mais incríveis porque mesmo sozinho, muitas vezes, não fugiu à luta. Gil você é um exemplo. Parabéns”.

Já engajado na luta pela transformação da comunidade onde cresceu e que até hoje vive, o jovem De Leon não mais parou. Desde o primeiro protesto já se vão 23 anos. Participou de algumas instituições. Foi Diretor de Assuntos Comunitários da Associação de Moradores da Chapada, membro da Associação Santa Beatriz, no Nordeste de Amaralina, voluntário do Grupo de Apoio à Criança com Câncer dentre outras ações onde atua como colaborador. A forte liderança e o poder de mobilização de Gil dentro da comunidade logo chamaram à atenção dos políticos: é comum ver o líder interceder junto a vereadores, deputados, prefeitura ou até mesmo ao executivo estadual. Sempre em prol da comunidade e sem levar em conta partido político. Em 2000 acabou saindo candidato a vereador. A experiência serviu para mostrar que não possuía tino político nem paciência para a politicagem. A carreira política tão logo começou, acabou. “De lá para cá tomei pavor. A comunidade já sofreu muito com vereadores que se diziam representantes do bairro e nada faziam. Além disso não dá para misturar trabalho social com política partidária. O trabalho do líder comunitário é livre para dizer o que pensa e fazer o que quer na hora que quiser. Enfim, não me vejo como político ”.

Comunidade – Sobre a comunidade, Gil não hesita em apontar a violência como um dos principais problemas: “A falta de amor à vida humana está terrível. Não existe amor ao próximo, falta amor da família, falta diálogo, falta educação familiar. Isso tudo influi num vespeiro de desespero porque hoje em dia a violência é tratada nas comunidades como uma coisa comum. Hoje se mata, se rouba se faz tudo e a polícia nunca está presente e se está presente também não faz muita coisa. Falta credibilidade para todos os lados”.

Entre Aspas – De acordo com De Leon, o Instituto Entre Aspas nasceu com a proposta de representar os moradores junto aos órgãos públicos buscando enxergar situações e demandas existentes dentro da comunidade. Entre os principais projetos já desenvolvidos pelo instituto, destaque para: o Nordeste Cidadão Cidadania, a Feira de saúde, o Chapada Serviços e Cidadania, a Campanha de Prevenção à Violência, o Valoriza a Vida Humana, e por fim, o Bazar dos Artistas, criado para dar uma sustentação aos projetos desenvolvidos pelo instituto, com a ajuda de vários artistas e celebridades e que já está na oitava edição.Senti a necessidade de abrir uma instituição a qual me representasse juridicamente, pois apesar dos muitos anos de luta eu ainda não tinha uma instituição que eu mesmo presidisse e para buscar juridicamente os direitos de todos nós moradores e cidadãos aqui da comunidade. Foi daí que em 2010 criei o Instituo Entre Aspas de Ação Comunitária. Pensar melhoria é pensar o Instituto Entre Aspas”.

Atualmente, o líder comunitário tem focado no projeto “Chapada Arte Cidadão”, voltado para promover arte e educação para crianças e jovens da comunidade. “Lá as crianças vão poder aprender e passar para os outros. Temos oficinas de canto, coral, percussão, violão, grafite,  fitdance, balé, capoeira, artesanato,  dentre outras…”.  

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU