Domínio do pagodão levanta polemica no Circuito Mestre Bimba

E a polêmica continua....

“Tá Rebocado!”, diz uma gíria bastante popular em Salvador na década de 90, o pagodão é quem literalmente dita o ritmo no Circuito Mestre Bimba. Bandas como “A Invasão”, “O Pânico”, “O Cafetão” e “Hiago Danadinho”, todas de pagode, têm suas músicas decorados, “de cor e salteado”, pela juventude do bairro.  Todas integraram a grade de programação do Circuito Mestre Bimba no carnaval 2018.

“Bota a mão no banheiro”, “Como você, como sua amiguinha”, “Rala a pepeca no chão”, “Aqui de quatro sentando pra caralho” e “Senta putiane” são alguns dos hits mais tocados no carnaval do Nordeste de Amaralina. O sexo é o tema central da maioria dessas composições. Ingrid Dantas, 20 anos, aponta o pagodão e o funk como seus estilos musicais favoritos. Ingrid diz não se importar com a letra das composições, para ele o que vale é o ritmo. “As músicas são  envolventes. Não tem esse negócio de letra comigo, não. Pode ser baixaria, pode ser o que for que estou dançando.  Eu acho que cada um dança o que quer… Se não gostar, não dança”, ressalta a jovem.  Sua música predileta? “Me ligue depois, estou ocupada. Tem uma cachorra aqui de quatro. Xerecaaa…”. Para Cristina Nascimento, moradora da Chapada do Rio Vermelho, os blocos deveriam investir mais em bandas de partido alto. “Não falo samba duro, mas bandas no estilo de “Revelação”, “Sorriso Maroto”…”, explica. Sobre o “pagodão” e suas controversas mensagens, Cristina opina:   “Não curto e é logico que me sinto incomodada. É a questão do respeito não só à mulher, mas também à família. Temos idosos e crianças aqui no circuito que são forçados a ouvir esse tipo de coisa. Infelizmente a galera jovem do Nordeste gosta disso. Os paredões… Tudo isso influi”.

O cantor de pagode, Gueu Braga, salienta o caráter eclético do carnaval do Circuito Mestre Bimba, mas pontua que de fato é o pagode que prevalece na preferência dos foliões. “Não só o carnaval do Nordeste, mas a Bahia toda.  É o swing… a batida… Aqui no nosso circuito tem a batida afro, tem o reggae… Mas realmente é o pagode que domina o carnaval do Nordeste”. Pagodeiro raíz, Gueu não costuma colocar em seu repertório composições com apelo sexual ou que desvalorizem o sexo feminino. “Essas letras que falam somente de sexo e subjugam a mulher eu não dou valor. Acho que tem determinadas situações de um duplo sentido, uma brincadeira, que muitos cantores fazem e isso é bom. Mas vir esculhambar a mulher é absurdo”, critica o cantor.

O cantor e compositor Sandoval Melodia, remanescente da velha guarda, engrossa o coro: “Hoje o pagodão domina 100%”. Sandoval continua: “O afro, o samba reggae não têm cartas na mesa. Nós estamos oprimidos nesse contexto. São muitos os paredões tocando 24h esses estilos. A força do pagodão é reflexo da força dos paredões. Não estou aqui criticando o pagodão. Tudo é cultura. Todo mundo tem seu dom e sua forma de se expressar, mas preciso valorizar tudo. Na quarta-feira mostramos a força da música afro com o Swing Afro Magia. Bato palma para a galera do pagodão que vem sustendo o seu ritmo. Se os paredões dessem um pouco de moral a música afro e ao samba reggae acho que a gente também chegaria ao topo. Eu sou 100% afro!”.

O compositor e reggaeman, Fábio Nollasko,  é mais enfático em suas criticas e sobe o tom contra as letras que denomina como sendo de “apelo popular”: “O nosso complexo de bairros consome esse tipo de música, os donos de blocos querem vender seus abadás e vão pelo mesmo caminho…. Não se ligam que alimentam uma indústria de músicas de péssima qualidade e influenciam a grande massa. Todo evento que acontece no bairro tem o mesmo estilo de música: “pagodão”. As letras não passam nenhum tipo de mensagem positiva… No SalJahMaica  procuramos levar mensagem de amor, de paz, alegria e abordagens sobre questões raciais”.

A polêmica está lançada. E vocês o acham?

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU