Afoxé Bamboxé realiza 45ª edição do Presente de Amaralina

Manter viva uma tradição de quase meio século. É como esse intuito que o Afoxé Bamboxé realiza neste domingo (13) a 45ª edição do presente de Amaralina. A concentração será às 14h no largo da Olaria. O cortejo que reunirá pescadores, representantes do povo de santo da região, além de simpatizantes e curiosos, parte rumo à praia onde o balaio será ofertado à rainha das águas. O som do ijexá e o rufar dos atabaques prometem dar o ritmo do evento.

Almir Odun Ará, do afoxé Bamboxé, relata que começou a frequentar a festa ainda na época de seu Aloísio, pescador antigo da colônia Z1 e um dos idealizadores do presente. “O presente ainda era cheio de gente e com uma organização legal. Até que seu Aloísio faleceu e a gente formou o afoxé Bamboxé com o objetivo, inclusive, de fortalecer o presente. O pai de santo João Luís ainda está vivo e fizemos a entrega do presente junto com um grupo de músicos e ogans. De lá para cá a gente tem mantido a tradição. Já chegamos a sair com um atabaque e um agogô. Amanhã será resistência novamente”, explica Almir. Ainda de acordo com Almir o apoio por parte do poder público é uma das reivindicações: Geralmente quem cola conosco é o Nordesteusou. Vamos tentar uma audiência pública ainda esse ano para discutir o presente. Dê, sobrinho de mestre Aloísio também sempre faz o presente dele e se junta à nós. Não é somente o presente em si. É também a defesa da nossa praia, assim como pregamos a defesa do Parque da Cidade e suas árvores sagradas. Coisas essenciais para o orixá e para a própria vida. O orixá é vida.

HISTÓRIA – A tradição já dura 45 anos. Os mais antigos explicam que a festa começou na década de 70, quando a construção de um emissário submarino no Largo da Mariquita, no Rio Vermelho, acarretou com a mudança de local da colônia de pesca do bairro. Os pescadores então se dividiram: enquanto uma parte migrou para o Largo de Santana, um outro grupo se alojou em Amaralina. Surgiu assim a colônia de pesca Z1. Se, aproximadamente desde o ano de 1923 (segundo o historiador Cid Teixeira), os pescadores já tinham o hábito de cultuar Iemanjá e fazer a entrega do presente no dia 2 de fevereiro, os pescadores assentados na nova colônia criaram a tradição do presente de Amaralina. A data escolhida foi o primeiro domingo após a lavagem do Bonfim. No livro “ Traços e Laços – Memórias da Região do Nordeste de Amaralina”, Dona Carmelita Santos, antiga moradora do bairro e frequentadora assídua da celebração, explica  que “a festa do Rio Vermelho era “beber e se divertir”, e na Amaralina para dar o presente a Iemanjá”. Entre o final dos anos setenta e medo dos anos 90 a entrega do presente de Amaralina era cercada de grande expectativa na comunidade. Palco, barracas de bebidas e comidas movimentava toda a região da praia. O sagrado e o profano se misturavam. O alvoroço começava no sábado à noite e culminava com a entrega dos balaios no meio da tarde de domingo.

CRISE – O esvaziamento de grande parte das chamadas festas de largo vitimou também a festa de Amaralina. Descaso do poder público, desinteresse dos pescadores em realizar a festa, perseguição por parte dos moradores do entorno à praia, que se viam incomodados em meio a algazarra, são alguns dos motivos apontados como causas do enfraquecimento do evento. Morador do Alto do Areal há 49 anos, Jorge Bonfim opina que a crise da festa, assim como aconteceu com a lavagem da Pituba, é resultado da reivindicação de moradores das redondezas que se achavam prejudicados com a festa. “Os governantes por serem amigos ou parentes dessa gente e também para economizar dinheiro, começou a esvaziar as festas. A festa era realizada por pescadores, baianas de acarajé, mães de santos e pessoas que aproveitavam esse momento para melhor a sua renda. Nem isso sensibilizou os governantes”, lamenta.

Contra tudo e todos a tradição segue viva. Nordeste de Amaralina é resistência. Odoyá, minha mãe.

 

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Tiago Queiroz
Graduado em Comunicação/Jornalismo, e exerce as funções de Editor e Coordenador de Jornalismo do Portal NORDESTeuSOU