[Coluna NES] UMA DOR QUE NÃO PASSA – Por Manoel Neto

Quando a primavera se aproxima é de Machado de Assis que me lembro, ele que denominou a radiosa estação de "eterna florista".

Dezembro dos verões de céu imaculadamente azul em Salvador, por sua vez é igualmente o mês das chuvas ansiosamente aguardadas pelo sertanejos, águas da redenção, que veste de verde a caatinga cinzenta. Também celebro o aniversário de minha filha Isadora e de minha irmã Gal, pessoa cheia de fé e de um senso de fraternidade visceral, terno e inegociável.

Entretanto, hoje 13 de dezembro de 2018, um sentimento espesso e doloroso me toma de assalto. Recordo com um pesar que os anos não diluem: a edição do Ato Institucional Nº 5, o tenebroso AI 5, medida adotada pela Ditadura Militar para conter o avanço da luta democrática, para cercear de forma violenta e fascista os direitos fundamentais da gente brasileira. Tinha eu 14 anos de idade, portanto, minhas lembranças possuem ainda uma amargura juvenil, uma revolta carregada de receios, de indagações, as quais o horror dos subterrâneos dos cárceres, a amargura do exílio de centenas de intelectuais, artistas, estudantes, professores, políticos, ou seja, pessoas que não compreendiam e lutavam irresolutas contra a desumanização da vida, contra a tortura e o aniquilamento físico de presos trancafiados nos porões macabros do Regime sedento de sangue, dos generais empertigados a se apresentarem como donos do Brasil.

Cinquenta anos depois ainda permanece em mim e para sempre viverá a figura inerte de Edson Luís de Lima Souto, mortalmente atingido pelos verdugos da repressão no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, durante uma manifestação estudantil selvagemente reprimida pelo aparato militar mobilizado para intimidar os meninos que se faziam naquele momento arautos da liberdade, noivos e noivas do porvir, como diria o eternamente jovem e libertário, nosso poeta, ele também um condor dos céus libertos, Castro Alves.

Tudo isso se fez história, para muitos como eu testemunha presencial e que perdeu nos caminhos amigos “para nunca mais”, eles que nos ressurgem quando em vez nos sonhos e nas recordações que a maturidade nos impõe, controverso memorial de nossa existência, talvez insinuando das suas paragens além túmulo, nos alertando diria melhor, que a pátria está novamente em perigo! Nuvens carregadas toldam os céus, manchando com a sujeira mal cheirosa do autoritarismo, do obscurantismo, o horizonte da liberdade, enevoando as manhãs antes claras e inocentes como o abrir dos olhos de uma criança!

 

Colunista Manoel Neto – Historiador e membro do centro de estudos Euclides da Cunha da UNEB | Morador do Nordeste de Amaralina.

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Redação NES
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