[ADVOGADO DOS ARTISTAS] FILHO DO NORDESTE BRILHA NOS TRIBUNAIS BAIANOS

Segunda, 04 Setembro 2017 00:25

Eu vi um menino correndo / eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino, / eu pus os meus pés no riacho. / E acho que nunca os tirei. / O sol ainda brilha na estrada que eu nunca passei. (Caetano Veloso)

O jeito simples e educado, além do forte caráter em nada mudaram no garoto Gabriel Bonfim. Garoto sim, apesar dos 29 anos. O hoje advogado conserva no seu jeito de ser a doçura do menino que brincava com outros garotos na rua Itajuá. O hoje “advogado dos artistas”, como é conhecido, e que é exemplo para todos os jovens da comunidade, conversou com o Nordesteusou e nos contou um pouco da sua trajetória.

Gabriel é nascido e criado no Nordeste Amaralina. “Na minha rua não entrava nem carro”, costuma lembrar. Ali até hoje ainda conserva os laços afetivos enraizados através dos amigos e vizinhos com os quais conviveu. “Isso fala profundamente ao meu coração porque eu pude acompanhar um pouco da trajetória de cada pessoa e também da minha. Ali eu morei com minha mãe e minha tia, que hoje eu considero minha mãe afetiva. Sempre vivi ali e convivi com todos os amigos e toda vizinhança. Hoje sempre vou lá ver minha mãe e ainda durmo lá de 7 em 7 dias, aos domingos”, explica. Aos 17 anos um grande baque: a perda da mãe.  “Fiquei órfão de pai e mãe e passei a ser criado integralmente por Dorinha minha mãe afetiva”, relembra.

Dos tempos no bairro Gabi, como é conhecido pela vizinhança, gosta de lembrar dos passeios na orla, do acarajé quentinho no largo das baianas, das aulas de canto na igreja Batista e dos cursos no Beco da Cultura. Sobre os cursos ele ressalta: “Fiz muitos cursos no Beco da Cultura. De manutenção de microcomputadores, inglês, de administração de todo tipo. O que era oferecido pelo governo eu fazia. Isso foi muito bacana e de grande importância para minha formação”.

Se não era rico, também não era tão pobre.  A custo de muito sacrifício pôde estudar em bons colégios. A vida escolar foi iniciada na Escola Bernadino Moreira, situada no Nordeste de Amaralina. De lá para o Medalha Milagrosa, no Rio Vermelho, onde concluiu o ensino médio. Tudo na base de muita luta, como sempre acontece com aqueles que são oriundos dos bairros periféricos, ainda que ele possuísse condições um  pouco melhores do que a maioria dos outros garotos do bairro. “O jovem não tem muita credibilidade e tem que criar a sua oportunidade. O jovem do gueto passa por isso dobrado. Muito mais difícil, mas não impossível”, frisa Gabriel.

Concluído o ensino médio era hora da faculdade. O curso escolhido foi o Direito: “Quis fazer Direito pela vontade mesmo... Sempre achei que era a coisa certa. Não foi racional, não. Senti isso no coração. Foi uma coisa de dentro para fora. Foi um sonho de infância”. Escolhido o curso e a instituição de ensino, no caso a Faculdade Batista, mais um obstáculo surgiu à frente de Gabriel:  a grana era curta e insuficiente para o pagamento da mensalidade. Ledo engano daqueles que ousaram em duvidar da ousadia e obstinação do garoto:  “Na verdade eu não tinha dinheiro para pagar a faculdade, mas eu tinha um pequeno valor somente para a matricula e arrisquei. Fiquei devendo o segundo mês, mas no terceiro eu tive a sorte de conseguir um estágio. Consegui um desconto de 15% e posteriormente de mais 10%. O que é interessante é que eu não tinha onde cair vivo, porque morto o sujeito cai em qualquer lugar. Sempre pegava meu ônibus no final de linha.... Ia para aula, ia para o Fórum, ia dar aula... Fiquei um ano advogando de ônibus!”  ”, lembra o emocionado advogado.

Hoje, o “Doutor Gabriel Bonfim” é o Presidente executivo do escritório de advocacia Gabriel Bonfim e Associados, situado no Wall Street Empresarial, e recebeu da imprensa a alcunha de “advogado dos artistas”.  “Advoguei para Anderson Freire (cantor gospel), advoguei para Robssyssão,  advoguei para Denny (ex-Timbalada), advoguei para Joice (ex-dançarina do É o Tchan). Tive a oportunidade de participar do programa Super Pop de Luciana Gimenez. Advoguei também para Átila Brandão, além de empresários”. Perguntado qual o maior legado do bairro onde nasceu na formação do seu caráter e na sua trajetória profissional o requisitado jurista responde: “Influenciou na minha simplicidade. Sou apaixonado pelo Nordeste, pela alegria do povo, pela simplicidade do povo.... Um povo que luta, que não desiste, que batalha, que vai pra cima e que é aguerrido”. Alguém ainda dúvida que para Gabriel o céu é o limite?

Por Tiago Queiróz - Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.





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