[Coluna NES] Sou Morador do Nordeste de Amaralina e também sou filho de Deus.

Além da classe e da cor, expressões culturais relacionadas a moradores da comunidade sofrem discriminação e são alvo das políticas voltadas para conter a população favelada.

Os estereótipos negativos em relação à vida no Complexo do Nordeste de Amaralina e aos seus moradores, os favelados, estão presentes tanto na ideologia da política habitacional do Estado, quanto nas representações espontâneas dos habitantes de Salvador.

“O estereótipo do bandido vai-se consumando na figura de um jovem negro, funkeiro, morador da favela, próximo do tráfico de drogas vestido com tênis, boné, cordões, portador de algum sinal de orgulho ou de poder e de nenhum sinal de resignação ao desolador cenário de miséria e fome que o circunda”, já dizia Orlando Zaccone.

Nasci na favela, logo sou favelado. No Nordeste de Amaralina me reconheço e dali posso ser olhado pelos outros. Só que a comunidade não é apenas o lugar do “espaço banal” produzido por todos e com todos, das solidariedades e dos conflitos locais, mas o espaço que recebe o conteúdo ideológico de outros que estão distantes, e que o objetivam como o lugar atrasado, sem atrações e distante (aqui o sentido da distância equivale à inacessibilidade e rejeição), enfim, o lugar “onde o judas perdeu as botas”.

O que se quer é ser feliz e felicidade é ser tratado com respeito, é ter direito de ir e vir, de se divertir, de ser reconhecido, de ter segurança e paz. O porque desses desejos de felicidade tão básicos para uma sociedade democrática serem considerados tão ameaçadores é uma questão para refletirmos. Talvez essa sociedade não seja tão democrática assim. Ou, talvez, o misterioso recado final, “Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui”, possa soar demasiado ameaçador para ouvidos educados na persistente tradição da casa-grande.

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Robert Santos
Graduando em Ciências Contábeis Ativista Social e Produção Geral do Portal NORDESTeuSOU