[COLUNA NES] “PARA LAVAR A ROUPA DA MINHA SINHÁ”

Fiquei estes dias ruminando as informações e imagens da festa bombástica da senhora Donata Meireles, executiva da Revista Vogue, casada com o não menos ilustre e badalado publicitário Nizan Guanaes. Dona Donata fez cinquenta anos em grande estilo, escolhendo como local para a sua festa o Palácio da Aclamação, antiga residência dos governadores, que custara a fábula de trinta contos de réis, quando adquirido pelo estado na gestão do Sr. Araújo Pinho. Pois bem, transformado em Museu, segundo consta na internet, também tornou-se um espaço comercialmente explorado pelo Governo que o aluga para a realização de eventos. Também lá ao que recordo, salvo engano, foram velados o ex-governador Lomanto Junior e o ex-deputado Zezéu Ribeiro. Neste lugar chic e tradicional é que ocorreu o ágape patrocinado pelo fulgurante casal Nizan/Donata, com a participação de notórios como o Governador Rui Costa e senhora, Caetano Veloso, Preta Gil, parece que Margareth Menezes e tantos outros ilustres. Até aqui nada demais. Porém a publicação de uma imagem que retrata a anfitriã elegantemente trajada e aboletada numa cadeira senhorial e abanada por mulheres negras em trajes que historicamente nos remetia aos idos do Brasil escravocrata, causou revolta e indignação, entre todos que abominam o racismo simulado ou não ainda existente na Bahia, em que pese os grandes avanços políticos e jurídicos para combatê-lo.

Os donos da festa e alguns dos seus amigos e convidados negam constrangidos e envergonhados a intenção preconceituosa tão eloquente na foto de Donata e suas mucamas ocupadas em abaná-la.Dizem-se todos pessoas de ideias e convicções liberais, portanto, incompatíveis com preconceito tão tacanho e inaceitável entre seres razoavelmente civilizados. Vá lá que sejam! Contudo, alguns marcos históricos nos fazem pensar que sobre o assunto não podemos deixar dúvidas, quer no campo jurídico quanto físico. A escravidão no Brasil deixou um rastro caudaloso de sangue e seus reflexos ainda hoje se fazem presentes no cotidiano das cidades brasileiras. Nós os descendentes de africanos sofremos diariamente a exclusão social, a discriminação raivosa de indivíduos e instituições. Ainda hoje lutamos contra o opróbio, a ignorância, a violência privada e do Estado, ao tempo que buscamos com muita batalha e trabalho os reparos sociais necessários a nossa inclusão na sociedade, inclusive, o direito a educação. As cotas tão combatidas por muitos representam a possibilidade de se começar essa reparaçãoi.

Ora, durante a escravidão os negros também iam a casagrande, mas dormiam na senzala. Os senhores escravocratas também iam a senzala, porém, ao fazê-lo desejavam apenas vistoriar suas peças valiosas, mercadorias úteis e negociáveis. As relações de compadrio, a convivência por vezes amistosa e até mesmo afetiva entre senhores e escravos no ambiente familiar, não desfaziam, todavia, os laços escravagistas que mediavam essa relação. A cordialidade não segurou a mão que brandia o chicote!

Voltando a festa: realizá-la num espaço público, numa cidade majoritariamente negra, nos moldes em que foi planejada tornou-se um acinte! A presença do governador e sua esposa no evento pegou mal prá chuchu. Aliás, muita gente dita solidária a luta do povo negro, estava lá balançando o rabinho para a sinhá. Uma lástima!!!

COMPARTILHAR
Manoel Neto
Colunista Manoel Neto - Historiador e membro do centro de estudos Euclides da Cunha da UNEB | Morador do Nordeste de Amaralina.