[Coluna NES] Navegar por favelas na internet

Dicionário virtual escritura e organiza conhecimento saído das comunidades cariocas ou produzido sobre elas

Por Flavia Oliveira Colunista do O Globo

Na favela, como nos quilombos, nas tribos indígenas, nos terreiros de candomblé, a história é assentada na transmissão oral. É pela voz que os mais velhos legam as memórias aos descendentes. Parte dessa herança imaterial vai se eternizar por meio de projeto que a Fundação Oswaldo Cruz e parceiros põem na web na semana que vem. A WikiFavela é fruto do trabalho conjunto de acadêmicos e pesquisadores, de um lado; de intelectuais, líderes e anônimos de comunidades cariocas, de outro. Entra no ar na próxima quarta, 10 de abril, com 272 verbetes e 71 colaboradores cadastrados, entre eles Marielle Franco, que dá nome à iniciativa.

A vereadora carioca brutalmente executada há um ano, num atentado que também tirou a vida do motorista Anderson Gomes, escreveu sobre Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Tomou por base a dissertação de mestrado apresentada na Universidade Federal Fluminense em 2014 e recém-transformada em livro, “UPP — A redução da favela a três letras” (Editora N-1). Usou o exemplo da Maré, conjunto de favelas onde fora criada, para atestar como políticas públicas de segurança implementadas em comunidades populares se prestam a repressão ao controle dos pobres. “A marca mais emblemática deste quadro é o cerco militarista nas favelas e o processo crescente de encarceramento”, resumiu.

O “Dicionário de Favelas Marielle Franco” foi concebido pela socióloga e cientista política Sonia Fleury, ex-Ebape/FGV, hoje na Fiocruz. É uma plataforma virtual para agregar a produção e facilitar a difusão de conhecimento sobre as favelas do Rio de Janeiro. Reúne instituições como Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania (Ceacc), Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp/Uerj), Observatório das Metrópoles (Ippur/UFRJ), Instituto Raízes em Movimento (Complexo do Alemão), Museu da Maré e Núcleo Piratininga de Comunicação. Da rede de relacionamentos dos parceiros brotou o conjunto de referências, que se pretende em permanente construção. Estruturada na plataforma Wiki, difere da Wikipédia, similar famoso, porque permite abordagens múltiplas, em vez dos verbetes únicos construídos por diferentes autores.

Na WikiFavela um mesmo assunto pode ser apresentado em mais de um verbete. UPP, tratado também por Sílvia Ramos, do Cesec, é um exemplo; milícia, outro; e chacina. Há verbete sobre os assassinatos múltiplos na Candelária, em Acari, Vigário Geral, no Borel; falta Fallet-Fogueteiro, dois meses atrás. Engana-se quem pensa que o dicionário virtual só trata de violência. Sonia Fleury lembra da ênfase dos moradores em apresentar as origens das comunidades, bem como vocabulário, hábitos de convivência e espaços de lazer.

Rolezinho, o passeio de jovens negros em shopping que virou sinônimo de manifestação cultural, é verbete, assim como Literatura de Favela, definida como a produção artística conceituada a partir das obras de Carolina Maria de Jesus (“Quarto de despejo”), Paulo Lins (“Cidade de Deus”) e Luiz Paulo Corrêa e Castro, dramaturgo do Nós do Morro (Vidigal). Poesia de Esquina, série de encontros e oficinas literárias criados pela socióloga Viviane Salles e pelo escritor Wellington França, na Cidade de Deus, está no dicionário, bem como Baile Funk, apresentado como herdeiro dos bailes blacks dos anos 1970.

A WikiFavela ensina por que o morro se chama Dona Marta e a favela, Santa Marta. Na primeira missa local, o padre Velloso relatou uma passagem bíblica de Jesus com a mulher que o abrigava e, posteriormente canonizada, deu nome à comunidade. Explica que as 17 favelas da Maré compõem um bairro carioca desde 1994. Conta como Dom Hélder Câmara idealizou a Cruzada São Sebastião e governos higienistas impuseram a Remoção de Favelas, outro verbete, das encostas da Zona Sul, que passaram a abrigar edifícios de classe alta.

A plataforma se presta aos moradores locais por escriturar e organizar o conhecimento saído das comunidades ou produzido sobre elas. Nele há luta, criatividade, redes de solidariedade, capacidade empreendedora. É potência que se choca com os estereótipos de carência, precariedade e crime de quem, vendo de fora, só enxerga uma dimensão. A história única, para os interessados, está a uma tela do fim.

https://oglobo.globo.com/opiniao/navegar-por-favelas-na-internet-23574398
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Redação NES
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